
Entrevista
Marco Antonio Zago
Presidente da Fapesp destaca que a inteligência artificial não altera os fundamentos do método científico, mas transforma profundamente a forma de produzir conhecimento. Segundo ele, a tecnologia amplia a capacidade de analisar dados, identificar padrões e integrar diferentes áreas do saber, permitindo avanços em campos como saúde, genômica, clima e novos materiais. Zago defende investimentos em infraestrutura e formação de pesquisadores, destacando que a capacidade de formular perguntas e interpretar resultados continuará sendo uma competência essencial da ciência

Sobre
É presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Graduou-se pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde obteve títulos de mestre e de doutor, tendo realizado o pós-doutorado na Universidade de Oxford. Foi reitor e pró-reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), presidente do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e secretário de Estado da Saúde do Governo do Estado de São Paulo.
Foi coordenador do Centro de Terapia Celular de Ribeirão Preto e diretor clínico do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e membro da Comissão Nacional de Biossegurança (CTNBio).
É membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da World Academy of Sciences (TWAS), recebeu a Grã-Cruz e a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, a Medalha Paulista do Mérito Científico, a Comenda da Ordem do Mérito Naval da Marinha do Brasil e a Ordem Nacional do Mérito Militar do Ministério da Defesa do Brasil. Em 2015, recebeu o Prêmio Octávio Frias de Oliveira do Instituto do Câncer do Estado de S. Paulo, como Personalidade de Destaque em Oncologia.
FCW Cultura Científica – Professor Zago, no seu ponto de vista, a inteligência artificial representa apenas uma nova ferramenta para a ciência ou inaugura uma mudança mais profunda na própria forma de produzir conhecimento científico?
Marco Antonio Zago – Ela é uma ferramenta, antes de tudo. Mas é muito mais do que apenas um novo instrumento. A essência da ciência e a aplicação do método científico não mudam. Continuamos falando sobre identificar um problema, formular uma pergunta, obter respostas por meio de um método e interpretá-las à luz do conhecimento já existente.
O que muda profundamente é a maneira de executar esse processo. A inteligência artificial amplia enormemente a capacidade de analisar dados. Sem ela, determinadas análises levariam anos; hoje podem ser feitas em minutos. E isso faz muita diferença, porque quando você consegue examinar um volume muito maior de informações, pode chegar a respostas completamente diferentes das que obteria com um conjunto mais limitado de dados.
Além disso, a inteligência artificial permite identificar padrões que seriam extremamente difíceis de perceber por métodos tradicionais. Imagine uma base com dezenas de milhares de informações: ela consegue encontrar regularidades e relações que podem indicar modelos ou hipóteses relevantes. Também permite aplicar esses modelos de maneira muito mais rápida e eficiente para testar hipóteses científicas.
Há ainda um terceiro aspecto importante: a integração interdisciplinar. A IA facilita o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e permite combinar informações de origens muito distintas. Por isso, embora os princípios da ciência permaneçam os mesmos, a forma de fazer ciência muda estruturalmente.
FCW Cultura Científica – Quais áreas da ciência devem ser mais transformadas pela inteligência artificial nos próximos anos?
Marco Antonio Zago – As áreas que trabalham com grandes volumes de dados serão as mais impactadas. A saúde é talvez o exemplo mais evidente. Isso vale tanto para estudos populacionais e de saúde pública quanto para a busca de evidências científicas. Além disso, a análise de imagens se tornou um componente central da medicina contemporânea, e a inteligência artificial lida muito bem com esse tipo de informação.
A genômica também será profundamente transformada. O uso de ferramentas computacionais já foi decisivo para tornar a genômica possível em larga escala. Um exemplo interessante é o trabalho de Craig Venter, que mudou a forma de realizar pesquisas gen ômicas. Até então, predominava uma abordagem linear, em que o pesquisador precisava avançar passo a passo ao longo de uma sequência gigantesca de informações genéticas. Venter introduziu uma lógica completamente diferente: fragmentar o genoma, analisar os pequenos pedaços separadamente e depois utilizar computação para reconstruir o conjunto. Isso acelerou enormemente o processo.
Além da saúde e da genômica, eu destacaria os estudos sobre clima, agricultura, novos materiais e astronomia. A inteligência artificial deverá chegar a todas as áreas do conhecimento. A diferença é que algumas delas serão transformadas de maneira muito mais profunda.
FCW Cultura Científica – Como a inteligência artificial altera o papel do pesquisador?
Marco Antonio Zago – Eu acredito que a IA tende a assumir uma parte importante das tarefas operacionais. Isso significa que o pesquisador poderá dedicar mais tempo ao aspecto mais nobre da atividade científica: formular as perguntas corretas. Em toda pesquisa, a etapa mais importante é justamente saber qual pergunta fazer. Depois vêm a análise das respostas, o teste de hipóteses e a interpretação dos resultados. A inteligência artificial pode ajudar enormemente nessas etapas, mas não substitui o papel intelectual do cientista. Ela não elimina a necessidade de pensamento crítico nem a responsabilidade de interpretar os resultados produzidos.
FCW Cultura Científica – Nesse contexto, como a formação de novos cientistas deve mudar? Quais competências humanas se tornam ainda mais importantes?
Marco Antonio Zago – Precisaremos formar pesquisadores capazes de utilizar essas ferramentas de maneira competente, mas sem se tornarem dependentes delas. Existe uma visão de que a inteligência artificial acabará dominando o processo científico e que os pesquisadores se tornarão meros operadores das máquinas. Eu não acredito nisso.
A ferramenta só produz respostas úteis quando recebe perguntas adequadas. E as respostas obtidas continuam exigindo interpretação, avaliação crítica e contextualização. Por isso, a formação científica terá de enfatizar ainda mais a capacidade de formular boas perguntas, interpretar resultados e compreender os limites dos instrumentos utilizados. O pesquisador do futuro precisará dominar a inteligência artificial, mas não poderá ser dominado por ela.
FCW Cultura Científica – O desenvolvimento da inteligência artificial depende de infraestrutura computacional robusta, acesso a grandes bases de dados e capacidade energética. O Brasil – e particularmente São Paulo – está preparado para competir nesse cenário?
Marco Antonio Zago – Parcialmente. O principal desafio é a infraestrutura computacional. É nesse ponto que se travará a grande disputa nos próximos anos. Nossos pesquisadores são extremamente criativos e estão preparados para trabalhar com inteligência artificial. O problema não é a capacidade das pessoas. O que faz diferença é a infraestrutura disponível, a capacidade instalada e o acesso aos instrumentos necessários para realizar pesquisa de ponta.
O Brasil já enfrenta uma desvantagem em relação aos grandes centros internacionais. E, dentro do próprio país, existem desigualdades importantes que não serão corrigidas rapidamente. Algumas regiões dispõem de mais recursos, mais equipamentos e mais capacidade computacional do que outras. São Paulo possui uma situação relativamente melhor, mas mesmo aqui ainda há um esforço importante a ser feito. Por isso, ampliar a infraestrutura voltada à inteligência artificial tornou-se uma prioridade para a Fapesp.
FCW Cultura Científica – Como a Fapesp tem se preparado para enfrentar esse desafio?
Marco Antonio Zago – Recentemente, o Conselho Superior da Fapesp definiu sete eixos prioritários para o período de 2026 a 2028. Esses eixos representam investimentos adicionais às atividades regulares da Fundação. A Fapesp continuará apoiando normalmente seus programas de infraestrutura, projetos regulares, projetos temáticos e Cepids. Mas, além disso, haverá um esforço concentrado em áreas consideradas estratégicas para o futuro do estado de São Paulo. A inteligência artificial é uma dessas áreas prioritárias.
Estamos falando de investimentos relevantes, voltados não apenas para projetos específicos, mas para a construção de uma capacidade duradoura. Minha expectativa é que avancemos na criação de grandes estruturas dedicadas à inteligência artificial, capazes de coordenar e integrar iniciativas que já existem no estado.
FCW Cultura Científica – A Fapesp já possui iniciativas concretas nessa área?
Marco Antonio Zago – Sim. A Fapesp e o Comitê Gestor da Internet no Brasil compartilham a gestão de um fundo cujos recursos são destinados justamente a temas relacionados à internet, transformação digital e inteligência artificial. Com esses recursos, já foram criados dez centros de inteligência artificial: cinco no estado de São Paulo e cinco em outros estados.
Esse é um caso particular porque os recursos utilizados não provêm do Tesouro do Estado de São Paulo. Como se trata de um fundo administrado conjuntamente com o CGI.br, a Fapesp pode apoiar iniciativas fora do estado. Esses centros já constituem uma base importante para o desenvolvimento da área. Mas nosso entendimento é que precisamos avançar ainda mais e criar mecanismos de coordenação entre essas diferentes iniciativas.
Além dos dez centros já existentes, lançamos uma chamada específica para a criação de dois centros dedicados ao uso da inteligência artificial na saúde. A área da saúde reúne algumas das aplicações mais promissoras da tecnologia, seja em análise de imagens, busca de evidências, apoio ao diagnóstico ou utilização de grandes bases de dados clínicos e epidemiológicos. Por isso entendemos que fazia sentido criar uma iniciativa específica voltada para esse campo.
FCW Cultura Científica – A Fapesp lançou recentemente o Programa Estratégico em Ciência da Computação com Inteligência Artificial (ProCiêncIA), voltado à ciência da computação e inteligência artificial. Como funciona essa iniciativa?
Marco Antonio Zago – Os programas estratégicos são concebidos para funcionar durante períodos relativamente longos, normalmente entre cinco e dez anos. Eles servem para concentrar esforços e criar massa crítica em temas considerados prioritários. Ao longo desse período, diferentes modalidades de apoio podem ser direcionadas para a área: bolsas, projetos regulares, projetos temáticos, chamadas específicas e outras formas de financiamento.
Temos exemplos históricos importantes. Durante muitos anos, a Fapesp manteve um programa voltado à bioenergia que contribuiu para o desenvolvimento científico associado ao Pró-Álcool. Posteriormente, esse programa evoluiu para uma agenda mais ampla de transição energética. Outro exemplo é o Biota, voltado ao estudo da biodiversidade.
O ProCiêncIA segue essa mesma lógica. Trata-se de uma aposta de longo prazo destinada a atrair pesquisadores, estimular colaborações e fortalecer a capacidade científica do estado em uma área que será cada vez mais estratégica. Nesse sentido, a inteligência artificial deixa de ser apenas um tema emergente e passa a ocupar uma posição central no planejamento científico da Fundação para os próximos anos.
FCW Cultura Científica – Além do desenvolvimento de ferramentas e aplicações, a Fapesp tem interesse em estimular pesquisas sobre os limites, riscos e impactos sociais da inteligência artificial?
Marco Antonio Zago – Sim. Eu vejo essa questão sob duas perspectivas. A primeira é que, como ocorre em qualquer área do conhecimento, existe interesse em apoiar projetos de pesquisa que estudem a própria inteligência artificial, seus impactos e suas implicações para a sociedade. Mas existe também uma segunda dimensão, que é a responsabilidade das instituições científicas diante do uso dessas ferramentas. A atividade científica continua exigindo princípios fundamentais que não mudam com a chegada da inteligência artificial.
Estamos falando de transparência, reprodutibilidade, rastreabilidade e disponibilidade de dados. Esses elementos permanecem essenciais para a ciência e precisam ser preservados mesmo quando novas tecnologias passam a fazer parte do processo de pesquisa. A inteligência artificial pode transformar a forma de trabalhar, mas não elimina os fundamentos que garantem a confiabilidade do conhecimento científico.
FCW Cultura Científica – Quais são hoje os desafios mais imediatos trazidos pela inteligência artificial para o sistema científico?
Marco Antonio Zago – A ferramenta passou a fazer parte da redação científica. Hoje ela já é utilizada em diferentes etapas da produção de artigos, da organização de informações à elaboração de textos. Precisaremos discutir como incorporar essas ferramentas de forma adequada. A inteligência artificial pode contribuir para tornar a análise de manuscritos mais rápida, mais abrangente e mais precisa. Ela pode ajudar os revisores a identificar problemas, inconsistências ou aspectos relevantes de um trabalho.
Mas uma coisa precisa ficar clara: a inteligência artificial não pode substituir a revisão por pares. O julgamento científico precisa continuar sendo realizado por pesquisadores qualificados. A ferramenta pode auxiliar os revisores e ampliar sua capacidade de análise, mas a decisão final e a responsabilidade pela avaliação precisam permanecer com os pares.
FCW Cultura Científica – Universidades e agências de fomento ao redor do mundo começaram a publicar orientações sobre o uso de inteligência artificial. Como o senhor vê esse movimento?
Marco Antonio Zago – É preciso ter cautela. Existe hoje uma tendência muito forte de responder a qualquer novidade com novas regulamentações. Mas regulamentar excessivamente pode significar engessar. Eu não acredito que esse seja o melhor caminho.
Precisamos garantir que os cientistas tenham liberdade para explorar e utilizar essas ferramentas de maneira criativa e produtiva. Ao mesmo tempo, obviamente, é necessário assegurar padrões éticos adequados e evitar abusos. O desafio está justamente em encontrar esse equilíbrio. Não podemos permitir usos inadequados, mas também não devemos criar barreiras que impeçam o avanço da pesquisa.
Se a inteligência artificial foi utilizada, isso deve ser informado. O pesquisador deve explicar como a utilizou, quais parâmetros adotou e qual papel ela desempenhou no trabalho. A transparência permite que outros pesquisadores avaliem adequadamente os resultados obtidos. Na minha visão, essa abordagem é mais produtiva do que criar regras excessivamente rígidas que acabem limitando o uso de uma ferramenta que pode trazer benefícios importantes para a pesquisa científica.
FCW Cultura Científica – Que papel uma agência pública de fomento como a Fapesp deve desempenhar para garantir que a inteligência artificial seja utilizada em benefício do interesse público?
Marco Antonio Zago – O papel das agências de fomento é criar condições para que a comunidade científica utilize essas ferramentas da melhor forma possível. Isso significa investir em infraestrutura, apoiar projetos de pesquisa, estimular a formação de recursos humanos e garantir que princípios como transparência, reprodutibilidade e integridade científica sejam preservados.
A inteligência artificial representa uma oportunidade extraordinária para a ciência. Mas, como qualquer tecnologia poderosa, ela precisa ser incorporada de maneira responsável. O objetivo deve ser ampliar a capacidade da pesquisa científica de produzir conhecimento e gerar benefícios para a sociedade. Essa é, em última instância, a missão de uma instituição pública de fomento à pesquisa.
Sobre
Sou um parágrafo. Clique aqui para adicionar e editar seu próprio texto. É fácil.




















