
Entrevista
José Luiz Egydio Setúbal
Pediatra, filantropo e gestor, preside a fundação que leva seu nome e lidera um dos mais relevantes ecossistemas filantrópicos dedicados à saúde e ao desenvolvimento infantil no Brasil, formado pelo Sabará Hospital Infantil, Instituto Pensi e Instituto Infinis

Sobre
Fundação José Luiz Egydio Setúbal tornou-se referência na promoção da pesquisa, do ensino, da produção de conhecimento e da defesa de políticas públicas voltadas à saúde de crianças e adolescentes. Setúbal também preside o conselho da Associação Fundo Areguá, que concede bolsas para estudantes de Medicina, integra a Academia Brasileira de Pediatria e participa dos conselhos de diversas organizações nas áreas de saúde, educação e filantropia.
FCW Cultura Científica – A ciência brasileira é altamente dependente de recursos públicos. Qual é o papel estratégico da filantropia para garantir maior estabilidade e sustentabilidade ao sistema nacional de pesquisa?
José Luiz Egydio Setúbal – Aqui no Brasil, como no restante do mundo, a ciência é sempre fomentada muito mais pelo governo – pelo Estado – do que pela iniciativa privada. Principalmente a ciência mais pura, voltada para o fazer acadêmico.
A ciência prática ou aplicada, como é o caso da inteligência artificial, evidentemente está muito ligada aos grandes setores tecnológicos, que são privados. Pelo menos nos países mais desenvolvidos do mundo ocidental. Talvez na China e na Rússia não, mas, nos Estados Unidos e na Europa, essas áreas são muito ligadas ao setor privado.
A ciência acadêmica, apesar de ter uma parte fomentada pela filantropia, em sua maioria é patrocinada pelo Estado. E, no Brasil, não é diferente. Acredito que a filantropia poderia ajudar mais no Brasil, mas isso é uma questão cultural. Nós não somos um país onde a ciência é valorizada.
FCW Cultura Científica – O senhor costuma defender que a filantropia deve ir além da caridade tradicional. Como esse conceito se aplica ao investimento em ciência e pesquisa acadêmica?
José Luiz Egydio Setúbal – A filantropia, há muitos anos – eu diria que há muitas décadas –, já não faz caridade. A filantropia se distanciou muito da caridade. Acho que, no tempo dos meus avós, talvez ela fosse mais ligada à caridade. Mas, a partir da segunda metade do século 20, ela se distancia da caridade: é uma filantropia mais pragmática, voltada para causas. E, no século 21, em um contexto mundial, a filantropia passa a ser ainda mais voltada para causas relacionadas a grupos socialmente excluídos – como as causas raciais –, assim como à agenda ambiental, do que para a caridade.
Existem grandes fundações e grandes filantropos que atuam no fomento à ciência, principalmente nos Estados Unidos. Desde fundações como a Gates Foundation – que desenvolve vacinas para aplicação em países africanos ou em países menos desenvolvidos e atua em causas humanitárias por meio do desenvolvimento científico – até outras, como a Novo Nordisk, uma indústria farmacêutica que mantém uma fundação voltada também para a saúde e a ciência.
FCW Cultura Científica – Quais são as principais barreiras culturais e institucionais que ainda impedem que grandes doadores brasileiros vejam a ciência como uma causa prioritária para investimento filantrópico?
José Luiz Egydio Setúbal – Considero que existe essa barreira cultural, que é importante, mas também há uma barreira cultural que vem do governo. Começa pelo fato de que as primeiras coisas que o governo corta são os investimentos em educação, cultura etc. Embora existam recursos e incentivos para o desenvolvimento de produtos e tecnologia, o setor privado ainda investe pouco em pesquisa e desenvolvimento. E há o preconceito do empresário investidor com a academia, assim como da academia com o setor privado. Acredito que uma área com grande potencial de desenvolvimento é a das parcerias para promover ciência aplicada ao desenvolvimento.
O Brasil tem uma agricultura do tamanho que tem por que existe uma Embrapa, e porque existem empresas desenvolvendo muita tecnologia para a agricultura, tanto privadas quanto acadêmicas.
Se o Brasil tem agora a oportunidade de desenvolver produtos para a inteligência artificial e possui terras raras, por exemplo, é preciso buscar cientistas e desenvolver essa mineração, mas também a utilização desses recursos. Refletir sobre como utilizá-los cientificamente. Mas isso exige planejamento, um olhar de longo prazo, um olhar de Estado, que a gente não tem. E exige olhar para toda a cadeia: desde a mineração até o produto final, passando pelo setor privado.
FCW Cultura Científica – Nos Estados Unidos e em diversos países europeus, universidades e centros de pesquisa contam com forte apoio filantrópico. O que o Brasil pode aprender com essas experiências internacionais?
José Luiz Egydio Setúbal – A gente se compara muito com os Estados Unidos, e precisa, primeiro, colocar as coisas nas suas devidas dimensões: o Brasil é um país muito mais pobre do que os Estados Unidos. Então, o dinheiro destinado à filantropia nos Estados Unidos é – em termos numéricos e proporcionais – muitas vezes maior do que o destinado à filantropia no Brasil. Mas isso ocorre porque as grandes fortunas são taxadas de forma muito mais intensa nos Estados Unidos, o que não acontece no Brasil.
Então, você é estimulado a estabelecer fundações e realizar grandes doações, porque não é taxado se faz isso em vida. Existe um incentivo fiscal para a doação. E, como existem muitos milionários, bilionários e, agora, trilionários, há um incentivo para que esses recursos sejam destinados a fundações ou para que novas fundações sejam criadas.
Outro aspecto é que existe uma cultura de alumni – ex-alunos que doam para suas universidades –, que não existe aqui no Brasil. Aqui ninguém doa. Eu fui um dos fundadores do Fundo Patrimonial da USP. Fiz uma doação. Na verdade, sou ex-aluno da USP: fiz pós-graduação lá, mas não a graduação. Se você conversa com ex-alunos da USP, não passa pela cabeça deles doar para a universidade, onde estudaram de graça. Eu cursei a Santa Casa, então criei um fundo patrimonial para conceder bolsas aos seus alunos, mas não consigo captar recursos de ex-alunos para doações. Sei que a FGV enfrenta o mesmo problema: eles têm fundos de bolsas para alunos carentes e não conseguem captar recursos. Não faz parte da cultura brasileira doar para as escolas onde se estudou. A gente pode querer se comparar aos Estados Unidos, mas não somos comparáveis.
Filantropia em Apoio à Ciência
A colaboração entre as revistas FCW Cultura Científica e Ciência&Cultura resultou, além desta edição, na publicação do fascículo Filantropia em Apoio à Ciência.
Distribuído na 78ª Reunião Anual da SBPC, realizada de 26 de julho a 1º de agosto de 2026 na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), o fascículo inaugurou uma série dedicada a um tema cada vez mais estratégico para o fortalecimento da pesquisa e da inovação no Brasil. Nas próximas edições, a série continuará aprofundando o debate, com novos artigos, entrevistas análises sobre modelos de apoio à ciência, cultura de doação, fundos patrimoniais, políticas públicas e experiências bem-sucedidas no Brasil e no exterior.
Filantropia em Apoio à Ciência é uma iniciativa do Grupo de Trabalho Filantropia da SBPC em parceria com o Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (GEMA Filantropia), do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), e da Fundação Conrado Wessel (FCW), que financiou a publicação.

Revista FCW Cultura Científica v. 3 n.3 Set - Dez 2025



















