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Entrevista

France A. Córdova

A presidente da Science Philanthropy Alliance explica como a filantropia pode acelerar descobertas científicas, complementar o financiamento público, formar novas gerações de pesquisadores e fortalecer a cooperação internacional em um cenário de crescentes desafios para a ciência

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Sobre

Córdova é presidente da Science Philanthropy Alliance, rede fundada nos Estados Unidos em 2014 por seis fundações que acreditam que a pesquisa básica tem o potencial de gerar descobertas transformadoras e reconhecem a necessidade urgente de fortalecer a ciência voltada à descoberta diante da estagnação do apoio federal. Astrofísica, Córdova foi diretora da National Science Foundation, cientista-chefe da Nasa, presidente da Purdue University e chanceler da University of California, Riverside. Atuou em cinco administrações presidenciais, republicanas e democratas, consolidando-se como uma referência internacional em políticas de ciência, pesquisa e inovação.

FCW Cultura Científica – A filantropia é frequentemente elogiada por sua capacidade de apoiar pesquisas científicas de alto risco e alto impacto, em áreas nas quais o financiamento público e privado é insuficiente. Ao longo do contínuo que vai da pesquisa à inovação, onde você acredita que a filantropia gera hoje o maior valor?

France A. Córdova – Primeiro, no apoio à próxima geração de cientistas. Muitas fundações filantrópicas mantêm seus próprios programas de bolsas ou financiam bolsas por meio de outras iniciativas, frequentemente em parceria com universidades. Segundo, ao assumir riscos em novas abordagens para a ciência e sua aplicação prática, ou ao reduzir o risco de novas tecnologias que, posteriormente, passam a receber apoio governamental (como ocorreu com a tecnologia do espelho do telescópio Vera Rubin). Terceiro, no apoio a organizações científicas que produzem estudos independentes e imparciais, capazes de exercer ampla influência (como a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos).


FCW Cultura Científica – Como o sucesso desses investimentos de longo prazo deve ser medido?

France A. Córdova – Definir métricas e avaliar o sucesso é uma prioridade para os financiadores que apoiamos. Trata-se de um tema tão importante que criamos um grupo de interesse dedicado a Mensuração, Avaliação e Aprendizado, que se reúne regularmente para discutir essas questões e compartilhar boas práticas. Não existe uma fórmula única, pois cada projeto é diferente. O mais importante é estabelecer, desde o início, critérios claros para definir o que será considerado sucesso e avaliar periodicamente os programas financiados. 


Um excelente exemplo é o trabalho liderado por Evan Michelson, da Alfred P. Sloan Foundation, que analisou as Lições de uma Década de Filantropia para a Pesquisa Interdisciplinar em Energia. Uma das principais conclusões é que, embora indicadores quantitativos – como o número de publicações – sejam úteis, os financiadores também devem considerar resultados qualitativos, como a colaboração entre diferentes disciplinas, o engajamento das comunidades e o impacto mais amplo da pesquisa sobre a sociedade.


FCW Cultura Científica – Como a filantropia pode complementar o investimento público sem substituir o papel indispensável dos governos na sustentação da ciência?

France A. Córdova – A filantropia científica não dispõe dos recursos necessários para substituir o financiamento governamental da ciência. Tampouco possui a estrutura operacional e institucional para administrar grandes projetos de longo prazo – como o LIGO (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria a Laser) – ou para avaliar dezenas de milhares de propostas de financiamento, como faz o programa de bolsas de pós-graduação da National Science Foundation. Seu papel é outro: atuar de forma ágil, flexível e catalisadora, apoiando pesquisas inovadoras e assumindo riscos. 


FCW Cultura Científica – Em um momento de crescente polarização, mudanças nas prioridades públicas e desafios cada vez maiores à autonomia da ciência, que papéis a filantropia pode desempenhar?

France A. Córdova – A filantropia deve servir de exemplo em matéria de integridade científica, garantindo que os projetos e as pessoas que financia estejam alinhados aos valores das fundações que oferecem esse apoio. Ao mesmo tempo, precisa atuar com prudência para evitar a politização de suas iniciativas. Em períodos em que as prioridades dos governos e da sociedade estão em transformação, a filantropia pode representar um elemento de estabilidade. Ela é capaz de sustentar pesquisas de longo prazo, apoiar ideias independentes e concentrar esforços não apenas no financiamento dos pesquisadores de hoje, mas também na formação da próxima geração de cientistas. Esse compromisso contínuo com pessoas, instituições e comunidades também contribui para fortalecer a confiança pública na ciência.


FCW Cultura Científica – Que conselho você daria a líderes filantrópicos brasileiros que desejam contribuir para o avanço da ciência, da tecnologia e da inovação no país, mas ainda não sabem por onde começar?

France A. Córdova – Nosso conselho é simples: aprendam com outros filantropos que já apoiam a ciência. Existem comunidades ativas de filantropia científica nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e em outras regiões do mundo. Participem de encontros de filantropos, como os promovidos pelo nosso Global Science Philanthropy Forum. Sigam seus interesses e sua curiosidade científica. Busquem orientação de assessores científicos confiáveis e independentes. E, acima de tudo, comecem o quanto antes. Muitos filantropos descobrem que uma das maiores recompensas está justamente em experimentar, aprender e aperfeiçoar continuamente sua forma de atuar, tornando sua filantropia cada vez mais eficaz na promoção das descobertas científicas. Em última análise, todos têm o potencial de ser filantropos.




Filantropia em Apoio à Ciência


A colaboração entre as revistas FCW Cultura Científica e Ciência&Cultura resultou, além desta edição, na publicação do fascículo Filantropia em Apoio à Ciência. 


Distribuído na 78ª Reunião Anual da SBPC, realizada de 26 de julho a 1º de agosto de 2026 na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), o fascículo inaugurou uma série dedicada a um tema cada vez mais estratégico para o fortalecimento da pesquisa e da inovação no Brasil. Nas próximas edições, a série continuará aprofundando o debate, com novos artigos, entrevistas análises sobre modelos de apoio à ciência, cultura de doação, fundos patrimoniais, políticas públicas e experiências bem-sucedidas no Brasil e no exterior.


Filantropia em Apoio à Ciência é uma iniciativa do Grupo de Trabalho Filantropia da SBPC em parceria com o Grupo de Estudos de Modelos de Apoio à Ciência (GEMA Filantropia), do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), e da Fundação Conrado Wessel (FCW), que financiou a publicação.








Revista FCW Cultura Científica v. 3 n.3 Set - Dez 2025

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