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Editorial

Filantropia e ciência: uma aliança para o futuro do Brasil

Com forte dependência de recursos públicos, a ciência brasileira pode encontrar na filantropia um instrumento complementar para apoiar a pesquisa

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Sobre

Fazer da filantropia uma aliada da pesquisa é reconhecer que o desenvolvimento nacional depende não apenas de resolver os problemas do presente, mas também da disposição de imaginar e construir os horizontes do amanhã. Investir em ciência, num país de tantas urgências imediatas, é um gesto de confiança no futuro.

Nas últimas décadas, o Brasil construiu um sistema de pesquisa admirável. Universidades, institutos e agências de fomento formaram gerações de cientistas, consolidaram uma pós-graduação reconhecida internacionalmente e produziram conhecimento que transforma vidas – da agricultura tropical à saúde pública, da conservação da Amazônia ao setor aeroespacial.


Esse patrimônio coletivo, porém, repousa quase só sobre o financiamento público. Não é a presença do Estado que distingue o caso brasileiro – ela é comum nas nações que investem em ciência –, mas a fragilidade dos mecanismos que deveriam complementá-la.


Aqui, a filantropia e o investimento privado de longo prazo na pesquisa ainda são limitados. As empresas investem em inovação, mas tendem a concentrá-la em atividades próximas ao mercado; o apoio à ciência básica, à pesquisa de fronteira e a projetos de alto risco permanece restrito.


O resultado é um sistema vulnerável às oscilações econômicas e políticas. Quando os recursos públicos minguam ou se tornam imprevisíveis, laboratórios param, jovens talentos reconsideram suas carreiras e linhas promissoras perdem continuidade e, em ciência, a descontinuidade cobra caro: conhecimento não produzido, oportunidades perdidas e pesquisadores afetados.


Nesse contexto, a filantropia científica, conceito que Marcos Kisil e Guilherme Ary Plonski examinam nesta edição, apresenta-se como uma alternativa estratégica. A experiência internacional mostra que ela não substitui o Estado nem o investimento empresarial: seu papel é outro. Tem a capacidade singular de assumir riscos, apostar em ideias não consolidadas e dar flexibilidade a iniciativas que mal caberiam nos mecanismos tradicionais. Como lembra a Science Philanthropy Alliance, e como relata France Córdova nesta edição, descobertas transformadoras costumam nascer de pesquisas fundamentais cujos resultados não se podem prever no curto prazo.


O Brasil já dá os primeiros passos nesse caminho. Iniciativas como o Instituto Serrapilheira, cujo modelo de apoio a projetos de alto risco Hugo Aguilaniu descreve nestas páginas, e o investimento social de famílias empresárias, como na trajetória relatada por José Luiz Setúbal, mostram que mostram que existe no país disposição para sustentar a ciência por meio da filantropia.


Também merece destaque dois bons exemplos. Na USP, o antropólogo Stelio Marras destinou, em testamento, um imóvel avaliado em R$ 25 milhões ao fundo patrimonial da universidade, com a finalidade de financiar bolsas para estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Na Unicamp, o ex-reitor Marcelo Knobel realizou uma doação ao Fundo Lumina para apoiar bolsas e projetos na interface entre ciência, cultura e sociedade. Mas esses casos ainda são exceções; precisam tornar-se norma.


Para isso, é preciso completar o que já começamos. O país conta, desde 2019, com a Lei dos Fundos Patrimoniais (Lei 13.800), que regulamentou os endowments, fundos cujos rendimentos sustentam, de forma perene, universidades e centros de excelência. No exterior, fundos como esses sustentam por gerações laboratórios e instituições inteiras; entre nós, ainda são incipientes. Faltou, porém, o essencial: os incentivos fiscais à dedução das doações foram vetados na sanção da lei. Restaurá-los e enfrentar os entraves que ainda dificultam a captação pelas universidades públicas é a fronteira mais imediata.


Dois princípios precisam ser preservados. O primeiro é a autonomia da ciência: a filantropia financia a pesquisa, não dita sua agenda. O segundo é a adicionalidade, inscrita na própria lei: os recursos privados somam-se ao orçamento público; jamais o substituem. Governança transparente e prestação de contas sustentam a confiança entre doadores e sociedade. 


Há, ainda, uma oportunidade a não desperdiçar. A filantropia tende a concentrar-se onde a riqueza já está. Bem orientada, pode fazer o contrário, alcançar instituições e talentos do Norte e do Nordeste, hoje subfinanciados, e tornar-se também instrumento de equidade regional.


Nada disso relativiza a responsabilidade do Estado: o financiamento público seguirá sendo a espinha dorsal da ciência brasileira, indispensável a qualquer nação que aspire à soberania tecnológica.


Os grandes desafios contemporâneos – emergência climática, novas epidemias, transição energética, inteligência artificial, segurança alimentar, desigualdades – ultrapassam a capacidade de qualquer ator isolado. Governo, universidades, empresas, sociedade civil e filantropos precisam agir de forma complementar.


Sociedades que investem em conhecimento ampliam suas chances de prosperidade e bem-estar. Para quem doa, apoiar a ciência significa deixar um legado de longo alcance: liberdade para experimentar, coragem para arriscar e visão para sustentar aquilo cujo valor pleno talvez só as próximas gerações reconheçam. É um patrimônio que se mede em décadas, não em trimestres.


Fazer da filantropia uma aliada da pesquisa é reconhecer que o desenvolvimento nacional depende não apenas de resolver os problemas do presente, mas também da disposição de imaginar e construir os horizontes do amanhã. Investir em ciência, num país de tantas urgências imediatas, é um gesto de confiança no futuro.


Que esta edição conjunta de Ciência e Cultura e FCW Cultura Científica seja um convite à reflexão e à ação. O Brasil já demonstrou ser capaz de produzir ciência de excelência. Chegou o momento de ampliar a comunidade dos que decidem sustentá-la, porque apoiar a ciência é um dos atos mais generosos e transformadores de filantropia que uma sociedade pode realizar.


Francilene Procópio Garcia

Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)


Carlos Vogt

Diretor-presidente da Fundação Conrado Wessel




Sphere on Spiral Stairs

Revista FCW Cultura Científica v. 3 n.3 Set - Dez 2025

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