
Entrevista
Douglas Galante
Um dos pioneiros da astrobiologia no Brasil construiu sua carreira investigando os limites da vida sob radiação extrema, as bioassinaturas mais antigas do registro fóssil e as condições de habitabilidade no Sistema Solar. Nesta entrevista, fala sobre a criação do AstroLab, os desafios de identificar fósseis de bilhões de anos e suas pesquisas mais recentes em agricultura espacial, área que pode ser decisiva para missões humanas à Lua e a Marte.

Sobre
Com formação em Ciências Moleculares e doutorado em Astronomia pela USP, trajetória que incluiu a coordenação do Grupo Carnaúba no acelerador Sirius/CNPEM, Douglas Galante é atualmente professor doutor da cadeira de Geobiologia do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, onde desenvolve pesquisas em geobiologia, astrobiologia e ciências planetárias, utilizando desde técnicas de nanopaleontologia até plataformas espaciais para investigar a origem da vida, ambientes extremos terrestres e a habitabilidade do Sistema Solar.
Um dos pioneiros da institucionalização da astrobiologia no Brasil, Galante é um dos fundadores do Laboratório de Astrobiologia, o AstroLab, do Instituto de Química da USP. Em 2016, coorganizou o livro Astrobiologia: uma ciência emergente, que tem contribuído para a formação de estudantes e atração de pesquisadores para áreas afluentes da astrobiologia. Nos últimos anos, vem colaborando em pesquisas inovadoras em mais uma área de fronteira: a agricultura espacial.
FCW Cultura Científica – Professor Douglas, você é um dos pioneiros da institucionalização da astrobiologia no Brasil. Como foi seu primeiro contato com a área?
Douglas Galante – Meu sonho de infância era ser astronauta. Quando criança, participei de um acampamento de verão da NASA, o Space Camp, no Alabama. Lá, conheci astronautas e cientistas. Entendi que a única opção para um brasileiro ser astronauta era ser especialista de missão, ou seja, cientista. Tinha afinidade com as ciências exatas e entrei em Física na USP em 2000. Cursei um semestre, mas logo mudei para Ciências Moleculares, que ofereciam uma formação interdisciplinar. No ano seguinte, ganhei uma bolsa para participar do congresso da International Astronautical Federation (IAF), no Rio de Janeiro. Em especial, a palestra do professor Antonio Lazcano, da Universidade Nacional Autônoma do México, me marcou. Ele deu uma palestra fantástica, que foi da origem da vida à diversificação biológica no planeta e à conexão com os humanos. Fiquei apaixonado por aquilo.
Eu fazia iniciação científica em física nuclear, mas entrei em crise. Sem saber o que fazer na pós-graduação, escolhi deliberadamente a disciplina mais estranha: Física nos Instantes Iniciais do Universo. Achei o nome bonito, poético. O professor era Jorge Horvath, uma pessoa extremamente inteligente e perspicaz. Perguntei a ele se seria possível fazer algo sobre astrobiologia aqui no Brasil. Ele teve uma aluna que tentou ligar a física das estrelas com a biologia dos planetas. Ela desistiu de fazer o doutorado, e ele me indicou a leitura do trabalho incompleto. Li e pensei: é isso que eu quero fazer. Adaptamos o projeto para investigar como a morte de estrelas supermassivas em explosões gigantescas, que chamávamos de surtos de raios gama, poderia afetar a vida em um planeta exposto a essa radiação.
FCW Cultura Científica – Foi a primeira tese de doutorado em astrobiologia defendida no Brasil.
Douglas Galante – Outra tese pioneira na área por aqui é do Ivan Paulino-Lima, que colaborou muito comigo. Em 2006, houve o primeiro workshop brasileiro de astrobiologia, no Rio de Janeiro, envolvendo pioneiros como Cláudia Lage, Eduardo Janot Pacheco e Gustavo Porto de Mello. Ivan fazia doutorado com Cláudia, na Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, estudando experimentalmente o efeito da radiação em bactérias. Eu estava fazendo a mesma coisa do ponto de vista teórico. Começamos a colaborar em experimentos no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas, e, depois, na Inglaterra e na França, em outros síncrotrons.
FCW Cultura Científica – Sobre o que foram esses experimentos?
Douglas Galante
