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Biodiversidade em crise

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente é veemente: “Esta década é a última chance para a biodiversidade". Esta edição procura entender como estamos e o que pode ser feito para tentar reverter uma cenário de crescente degradação da diversidade biológica

Sobre

Esta edição de FCW Cultura Científica traz entrevistas com os pesquisadores Carlos Joly, Jean Paul Metzger, Leticia Lotufo, Alexander Turra e Gabriela Di Giulio

Crise é um conceito usado com tanta frequência que torna o desgaste inevitável. Crises estão presentes em diversas áreas, desde a política, saúde, psicologia e história até a economia, que parece estar constantemente em um estado de tensão. No entanto, quando nos deparamos com a crise da biodiversidade, é crucial prestar atenção – mesmo que isso não esteja acontecendo como deveria – pois essa crise implica na ameaça à própria vida, ao planeta e a tudo que ele abriga.

  

Biodiversidade refere-se à diversidade biológica, à multiplicidade de organismos vivos, abrangendo desde a variedade de espécies até os genes presentes em cada uma delas, além da organização e distribuição dos ecossistemas. Essa diversidade engloba todos os aspectos da vida, incluindo a vida humana, muitos dos quais têm enfrentado momentos difíceis. De fato, a situação nunca esteve tão grave.


“Esta década é a última chance tanto para a biodiversidade quanto para o clima: até um milhão de espécies estão ameaçadas de extinção e muitos ecossistemas estão em risco de colapso”, destaca o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). “Há uma necessidade urgente de reconhecer nossa dependência de um planeta saudável e da importância em trabalhar juntos para restabelecer uma relação positiva com a natureza.”


A crise da biodiversidade é um problema grave que afeta todos os seres vivos. Ela se refere à perda acelerada de espécies, habitats e ecossistemas causada principalmente pela ação humana. Alguns dos impactos dessa crise incluem a redução dos serviços ecossistêmicos, como a polinização, a purificação da água e a regulação do clima, bem como a diminuição da segurança alimentar e da saúde humana, além do aumento dos riscos de desastres naturais e pandemias.


Ações urgentes são necessárias e não há mais tempo a perder. Nesta edição FCW Cultura Científica foram entrevistados alguns dos mais renomados especialistas em diversidade biológica e conservação no Brasil, com o objetivo de destacar os problemas e apontar possíveis soluções.


Carlos Joly, professor emérito da Unicamp e mentor do programa Biota-Fapesp, ressalta que a situação da biodiversidade é crítica. “Estamos perdendo espécies em uma taxa sem precedentes na história. Isso, no passado geológico, levou a extinções em massa, como a dos dinossauros há 65 milhões de anos. Podemos estar entrando agora em uma nova extinção em massa e não sabemos se a nossa espécie será uma das que vão sobreviver à esta catástrofe”, disse. 


Joly também descreve a situação do problema no Brasil onde, em meio a desmatamentos, poluição e degradação, há também pontos positivos. “O Brasil é um dos poucos países que assumiu a tarefa de fazer planos de recuperação e restauração para as espécies ameaçadas de extinção. Nós temos planos do que precisa ser feito e em alguns casos isso já está sendo feito para praticamente todas as principais espécies ameaçadas”, disse. 


Em outubro, durante o evento SP Ocean Week, será lançada uma síntese do Diagnóstico Brasileiro Marinho-Costeiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, uma iniciativa coordenada pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES). A publicação foi elaborada com o intuito de servir como um sumário direcionado aos tomadores de decisão, porém, as notícias não são animadoras.


“O ponto principal é que a situação está piorando. Os dados obtidos indicam uma piora em relação à perda de hábitats, à sobrepesca, à diversidade genética e à cobertura de áreas de diversos ecossistemas marinhos. Os recifes de coral têm suas ameaças aumentadas, os manguezais também, cerca de 40% das praias apresentam nível elevado de erosão, temos perdas de áreas gigantescas de fundos vegetados submersos, que são extremamente importantes para a biodiversidade como alimento para várias espécies”, disse Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano. 


Mas nem tudo é má notícia e Turra apresenta também uma série de bons resultados, obtidos por iniciativas como Projeto Praias, Rede Oceano Limpo e Programa Pellet Zero, que têm contribuído para mitigar o impacto da degradação provocada pelo homem nos ambientes costeiros e marinhos.


O pesquisador fala também sobre o International Panel on Ocean Sustainability, que está sendo lançado por Fapesp, CNRS (França) e instituições de pesquisa de vários países. A crise da biodiversidade nos oceanos realça a importância da pesquisa científica para a compreensão mais aprofundada dos sistemas marinhos e para a obtenção de informações necessárias para a formulação de políticas de conservação.


Mobilização geral


No atual cenário de degradação da biodiversidade, a pesquisa científica é fundamental, mas não é suficiente. “Não podemos mais apenas gerar conhecimento sobre a biodiversidade, precisamos conseguir trabalhar com a biodiversidade como parte da solução”, disse Jean Paul Metzger, professor do Departamento de Ecologia da USP e membro da coordenação do programa Biota-Fapesp. Segundo ele, o conhecimento adquirido em estudos sobre biodiversidade precisa ser aplicado e urgentemente.


Para que as pesquisas resultem em políticas eficientes de conservação e de restauração, é necessária a participação das mais diversas áreas do conhecimento. “A ciência da biodiversidade tem amadurecido e tem se diversificado em termos de amplitude temática, mas para lidar com o desafio da implementação precisamos das Ciências Sociais, das Ciências Humanas, das Ciências Políticas e das Ciências Econômicas. Precisamos reunir um conjunto de conhecimentos que vão muito além do conhecimento biológico”, disse Metzger. 


Essa é a estratégia do Biota 2030, o novo Plano Estratégico de Ação do programa Biota-Fapesp. Com foco em pesquisa, conhecimento e ação multidisciplinar, o programa foi dividido em cinco eixos: Biota Coleções, Biota Descoberta, Biota Síntese, Biota Transformação e Biota Inovação. Os entrevistados desta edição de FCW Cultura Científica, que fazem ou fizeram parte do Biota-Fapesp, explicam cada um dos cinco eixos.


Leticia Costa Lotufo, professora no Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, aborda o Biota Inovação, que tem como objetivo promover, incentivar e identificar oportunidades de inovação em bioprodutos e serviços ecossistêmicos. Um potencial incalculável.


Lotufo coordena pesquisas que buscam inspiração e alternativas na biodiversidade para a produção de medicamentos destinados ao tratamento de doenças como o câncer. "A ideia é prospectar produtos naturais que possam ser utilizados como protótipos para o desenvolvimento de bioprodutos. Além de pensar no desenvolvimento desses bioprodutos, que podem servir como fonte de inspiração para fármacos, é fundamental lembrar que atribuímos valor à biodiversidade. Esse é um processo que agrega valor para promover a conservação, pois as pesquisas não podem mais se basear no extrativismo. Em nossas pesquisas, buscamos, desde o início, fontes sustentáveis", disse.


Pesquisa, descoberta, síntese e inovação para a transformação, ou seja, para encontrar meios de enfrentar e superar a crise da biodiversidade. “O eixo temático Transformação do Biota está alinhado com a discussão sobre integração de saberes, sobre o reconhecimento de outras perspectivas que devem ser vistas como tão relevantes e tão legítimas quanto a perspectiva científica para o entendimento dos fenômenos. Mais do que isso, para a solução dos problemas com os quais a gente se depara”, disse Gabriela Marques Di Giulio, professora na Faculdade de Saúde Pública da USP. 


“Isso passa por reconhecermos a necessidade de melhorar o diálogo entre áreas, entre campos de conhecimento, mas também entre atores que produzem conhecimentos, que não devem ser unicamente os cientistas. Para isso, precisamos envolver comunidades locais, comunidades tradicionais, lideranças da sociedade civil organizada, organizações não governamentais, mas também atores institucionais que atuam no governo local, no governo estadual, com o objetivo de  alcançar, de fato, uma comunidade ampliada de pares”, disse Di Giulio. 



Revista FCW Cultura Científica v. 2 n.1 Fevereiro - Abril 2024

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