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Entrevista

Eduardo Janot Pacheco

Primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Astrobiologia, Janot Pacheco liderou a participação brasileira na missão CoRoT, que resultou na descoberta do primeiro planeta fora do Sistema Solar, e hoje coordena o engajamento do Brasil no PLATO 2.0. Nesta entrevista, fala sobre estrelas de nêutrons, astrossismologia e a busca por gêmeas da Terra, reflete sobre os avanços e as oportunidades perdidas da astronomia brasileira e defende a criação de uma pós-graduação em astrobiologia no país

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Sobre

A astrobiologia entrou na vida do astrônomo Eduardo Janot Pacheco em 2000, na forma de um convite do CNES, a agência espacial francesa, para participar da missão CoRoT, o primeiro satélite capaz de detectar planetas rochosos na órbita de estrelas próximas ao Sistema Solar. Lançado em 2006, o satélite cumpriu a promessa no ano seguinte, com a descoberta do exoplaneta CoRoT-Exo-7b, primeiro planeta rochoso detectado fora do Sistema Solar.

Durante a missão, de 2006 a 2014, Janot Pacheco presidiu o Comitê CoRoT Brasil, coordenando a bem-sucedida participação brasileira. O sucessor do CoRoT, chamado PLATO 2.0, vem sendo desenvolvido desde 2015 pela ESA, a agência espacial europeia. Dado o sucesso da missão anterior, a ciência e a engenharia brasileiras também participam ativamente do PLATO 2.0. Janot Pacheco lidera a atuação brasileira no PLATO, que conta com financiamento da Fapesp e é coordenado pelo IAG-USP, onde o astrônomo é professor sênior.

Antes de se envolver em pesquisas sobre exoplanetas, Janot Pacheco deu outras contribuições importantes à astrofísica, avançando o conhecimento sobre a emissão de raios X por estrelas de nêutrons em sistemas binários. Além disso, com sua participação no CoRoT, o astrônomo contribuiu para o avanço da astrossismologia, área dedicada à compreensão da estrutura interna das estrelas por meio da observação de estelemotos, ou terremotos estelares. Os objetivos do PLATO podem ser mais ambiciosos, mas permanecem semelhantes aos do CoRoT: detectar exoplanetas e estudar a astrossismologia. Aposentado, Janot Pacheco continua sendo uma das principais referências brasileiras em ambas as áreas.

As pesquisas em exoplanetas resultaram em alguns dos avanços mais importantes para a astrobiologia nas últimas décadas, com a descoberta de mais de 6 mil planetas extrassolares. Interessado em entender a prevalência da vida no Universo, Janot Pacheco também atua para fomentar a astrobiologia no Brasil: foi um dos sócios fundadores da Sociedade Brasileira de Astrobiologia e o primeiro presidente da entidade, cargo que exerceu entre 2017 e 2021.

FCW Cultura Científica – Professor Janot, quando o senhor decidiu ser astrônomo?

Eduardo Janot Pacheco – Eu devia ter feito física, mas, na época, achava que física era para dar aula no ensino secundário [atual ensino médio]. Em Belo Horizonte, onde nasci, ingressei no curso de engenharia nuclear do Instituto de Pesquisas Radioativas (IPR) da UFMG. Fiz também engenharia elétrica, mas sempre gostei muito de astronomia e fui astrônomo amador na adolescência. Dos 15 aos 17 anos, fui sócio do Centro de Estudos Astronômicos César Lattes e fundei a Sociedade de Estudos Astronômicos de Minas Gerais (SEA-MG). Quando o [astrônomo] Silvio Ferraz Mello, uma das maiores referências em mecânica celeste no mundo, voltou com o doutorado da França, no início dos anos 1970, e abriu um departamento de astronomia no ITA [Instituto Tecnológico da Aeronáutica], não hesitei. Fui fazer mestrado lá com uma bolsa de meio salário que recebia no IPR. Fui um dos primeiros mestrandos em astronomia no Brasil.


Em seguida, fui para a França fazer o doutorado. Nossos contatos com a astronomia francesa eram muito fortes e continuam sendo. Fiz meu PhD na Universidade de Paris VII e voltei para o Brasil em 1987. Fui contratado no IAG-USP [Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo] em 1970 como engenheiro tecnicista; depois, me tornei docente nos anos 1980. Em 2015, me aposentei como professor sênior. Quando você se aposenta no sistema universitário, não dá mais aula na graduação, não participa de comissões, mas continua orientando e pesquisando. Trabalho mais em pesquisa do que antes de me aposentar.


FCW Cultura Científica – Como foi seu envolvimento na missão CoRoT?

Eduardo Janot Pacheco – Eu estava em Paris no ano 2000, durante um pós-doutorado, quando surgiu a oportunidade de entrar em uma colaboração do CoRoT [COnvection, ROtation and planetary Transits]. O INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] adquiriu uma estação para a base de Alcântara, no Maranhão, para receber os dados do satélite. Selecionamos três engenheiros brasileiros, formados na Escola Politécnica da USP e no Instituto Mauá de Tecnologia, que trabalharam no desenvolvimento do software e na análise de dados do satélite. A partir de 2009, começou efetivamente a participação brasileira no espaço, não apenas pegando carona em satélites de outros países, mas participando de um satélite com software próprio e fazendo ciência. A participação brasileira no CoRoT foi muito profícua, e os engenheiros se saíram brilhantemente. Quando o satélite estava no período final de sua vida, foi lançado o projeto PLATO [PLAnetary Transits and Oscillations of stars], da Agência Espacial Europeia, com orçamento de € 1,2 bilhão. Hoje, o Brasil é o único país de fora da União Europeia que participa desse projeto, em razão do nosso trabalho prévio no CoRoT.


FCW Cultura Científica – O PLATO vai procurar exoplanetas?

Eduardo Janot Pacheco – Sim, planetas parecidos com a Terra, rochosos e pequenos. A vida aparentemente precisa de superfície e de água para se desenvolver, principalmente a vida complexa. O problema é que só temos um modelo, um exemplo, que é a vida terrestre. O PLATO vai analisar estrelas parecidas com o Sol em busca de gêmeas terrestres. Depois, tentaremos analisar a atmosfera desses planetas com outros satélites. A vida apareceu aqui e deve aparecer em outros lugares. As anãs vermelhas constituem 78% das estrelas da galáxia, e seus planetas são quase todos pequenos e rochosos. A conclusão é que deve haver vários bilhões de planetas rochosos na galáxia. Esse é o argumento mais forte para dizer que deve haver vida fora da Terra. É ridículo pensar que foi só aqui que a vida surgiu.



FCW Cultura Científica – Quais foram os focos em seu mestrado e no doutorado?

Eduardo Janot Pacheco – No mestrado, as estrelas chamadas cefeidas, que são estrelas variáveis pulsantes. Analisei um caso particular delas no ITA. No doutorado, na França, estudei algo completamente diferente: as emissões de raios X. Minha tese foi sobre estrelas binárias de raios X, sistemas duplos em que uma delas é uma estrela de nêutrons que emite raios X.


FCW Cultura Científica – Qual é a diferença na emissão entre uma estrela de nêutrons sozinha e uma que faz parte de um par?

Eduardo Janot Pacheco  Uma estrela de nêutrons é muito densa, tem cerca de 10 quilômetros de diâmetro e forma um poço de potencial gravitacional muito profundo. Se você lança matéria ali, quando essa matéria cai, acelera e chega com energia muito elevada. Essa energia é transformada em raios X. Os fótons emitidos pela estrela de nêutrons, nessa situação, são de raios X, mas é preciso uma companheira para fornecer matéria à estrela de nêutrons. Sozinha, em geral, ela emite ondas de rádio. Em um sistema binário, as órbitas se aproximam e, quanto mais próximas, mais matéria da estrela companheira é transferida para a estrela de nêutrons, que acaba emitindo raios X.


FCW Cultura Científica – Depois do doutorado, o senhor passou a estudar astrossismologia

Eduardo Janot Pacheco  Não, ainda trabalhei muitos anos com estrelas binárias de raios X no IAG, nos anos 1990. Em 2000, uma das principais pesquisadoras do CoRoT entrou na minha sala, no Observatório de Paris-Meudon, e convidou o Brasil a participar da missão. O satélite realizava sismologia estelar e fotometria. Aderi ao projeto e convidei outros colegas brasileiros, que também entraram. Nos anos 1990, descobrimos que as estrelas também têm “estelemotos” [espécie de terremotos estelares], como o Sol. A astrossismologia é uma forma de analisar o interior da estrela, pois as ondas que observamos na superfície nos informam sobre a física da cavidade onde se propagaram, ou seja, do interior das estrelas. Com o CoRoT, tivemos um avanço enorme nessa área. A precisão necessária para fazer sismologia estelar é semelhante à necessária para detectar o eclipse de um pequeno planeta passando em frente a uma estrela. Comecei a me interessar também por exoplanetas. Formei um grupo de estudantes dedicado a exoplanetas no Brasil e, com o CoRoT, isso foi crescendo. Hoje, coordeno a participação brasileira no PLATO.


FCW Cultura Científica – Como foi a sua participação no Plano Nacional de Astronomia?

Eduardo Janot Pacheco – Eu era presidente da Sociedade Astronômica Brasileira em 2009, quando o então ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, um físico com uma visão fantástica de futuro, me chamou para coordenar um Plano Nacional de Astronomia (PNA), para que o ministério pudesse saber onde investir. Setenta pessoas da comunidade astronômica trabalharam durante vários anos. Rezende saiu do ministério logo depois, em 2010, e, quando apresentamos o plano, ele acabou ficando na gaveta, o que é lamentável. Agora, o ministério está fazendo uma atualização desse plano, sob a liderança da Sociedade Astronômica Brasileira.


Na época da elaboração do Plano, o segundo governo do presidente Lula aumentou de R$ 2 bilhões para R$ 7 bilhões o orçamento do MCTI [Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação]. Foi uma época muito boa. Pensamos em ingressar no ESO [European Southern Observatory], de modo a poder participar do maior conjunto de observatórios de ponta do mundo, instalados no Chile. Os benefícios seriam gigantescos. Imagine a indústria brasileira engajada no ESO, trabalhando com engenheiros em mecânica de precisão, óptica e eletrônica. Pode parecer caro entrar nesses projetos, mas é preciso levar em conta os benefícios científicos e o desenvolvimento de tecnologias. Tudo isso traria muitos benefícios para a própria indústria brasileira. Depois de dois anos de trabalho, conseguimos aprovar no Congresso um projeto de lei de ingresso no ESO. Faltava o governo assinar. Nunca assinaram. A então presidente Dilma Rousseff não quis. Sergio Rezende ficou atônito, pois o ESO custava relativamente muito pouco, algo em torno de metade dos juros diários da dívida brasileira. O projeto foi aprovado no Congresso em 2017, mas não foi implementado.


FCW Cultura Científica – Qual é a sua avaliação sobre a astronomia brasileira em relação aos grandes centros da Europa e dos Estados Unidos?

Eduardo Janot Pacheco  Mostramos, nas colaborações internacionais, que, em muitas áreas da astrofísica, estamos nos mesmos patamares europeus e norte-americanos. Os astrofísicos brasileiros se destacaram bastante no CoRoT, e os engenheiros brasileiros têm nível para desenvolver projetos que atendem às exigências europeias da ESA. Isso dá muita satisfação. Descobrimos que é possível ao Brasil trabalhar em projetos espaciais, que são os mais exigentes de todos. Somos bem menos numerosos do que nos Estados Unidos, por exemplo, e aqui não há tanto dinheiro quanto lá. O investimento em ciência no Brasil é muito baixo, muito menor do que em outros países em desenvolvimento, como a Índia, mas conseguimos fazer muita coisa por aqui.


FCW Cultura Científica – Como foi a sua participação na Sociedade Brasileira de Astrobiologia

Eduardo Janot Pacheco  Fui um dos fundadores, em 2017. Achamos que havia massa crítica trabalhando em áreas que confluem para a astrobiologia e que seria útil criar uma sociedade que pudesse dialogar com as agências de financiamento. Participei da fundação com o Gustavo Porto de Mello [astrônomo no Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro], Douglas Galante [professor do Instituto de Geociências da USP], Fabio Rodrigues [diretor do Laboratório de Astrobiologia da USP] e outros, em São Paulo. Fui presidente durante quatro anos. Foi uma iniciativa que valeu a pena. Começou a aparecer gente de Natal ao Rio Grande do Sul trabalhando em astrobiologia, e surgiram grupos de pesquisa e laboratórios em universidades e centros de pesquisa de todo o Brasil.



FCW Cultura Científica – As pesquisas em astrobiologia na USP, conduzidas principalmente no Laboratório de Astrobiologia (AstroLab), no Instituto de Química, têm principalmente foco em microbiologia e geobiologia. Não seria importante ter maior integração com a astronomia?

Eduardo Janot Pacheco  Há algumas pessoas no IAG com interesse em astrobiologia, como Jorge Meléndez, que trabalha com abundâncias em exoplanetas, e Jorge Horvath. Durante anos, tentei promover essa integração, mas não consegui avançar muito, porque as pesquisas do instituto estão concentradas em astrofísica. Além disso, promover a astrobiologia pode ser visto com certa desconfiança nos meios da física. Mas acho extremamente importante pesquisar uma das perguntas mais antigas da humanidade: estamos sós no Universo?


Deveremos ter pelo menos duas missões para Vênus na próxima década. Um engenheiro brasileiro que trabalha no PLATO acabou interagindo com a equipe alemã da ESA envolvida na missão orbital EnVision. Combinamos que o Brasil poderia ter dois PIs [principal investigators] científicos na EnVision. Vênus é quase gêmeo da Terra, mas sua atmosfera sofreu um efeito estufa descontrolado [runaway]. Quem mais se interessou pela participação foram os geofísicos do IAG; de fato, trata-se de uma missão mais voltada à geofísica. Na astronomia, o pessoal ainda não se abriu muito para a exploração espacial. Sobre a integração com a astrobiologia: o IAG é o centro mais importante onde se faz astrofísica no Brasil. Seus concursos de ingresso são muito exigentes mas é preciso começar a trazer pesquisadores que realizem seminários em astrobiologia, criando oportunidades de colaboração e mostrando que pode ser um campo cientificamente muito interessante. Precisamos fazer isso antes de conseguir um movimento mais concreto de integração.


FCW Cultura Científica – Quais são os próximos planos para a astrobiologia no Brasil?

Eduardo Janot Pacheco – Pensamos em criar uma pós-graduação em astrobiologia. Evidentemente, há todas as áreas envolvidas na astrobiologia, como microbiologia, astrofísica, geofísica e astroquímica – uma vastidão de temas de pesquisa —, mas não há trabalho de pesquisa científica sem a pós-graduação. É na pós-graduação que se aprendem as ferramentas científicas e se adquire autonomia em pesquisa. A Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] tem um programa multidisciplinar utilizado, por exemplo, pelos químicos, que também atuam em muitas áreas diferentes e que podemos tomar como referência. Vamos tentar implementá-lo, porque, sem isso, não se avança. A especialização ainda é muito forte, e não se pode esperar que um biólogo venha a fazer pós-graduação no IAG. É muito difícil. Mas a ideia é criar essa pós-graduação em astrobiologia em diversos locais.









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Revista FCW Cultura Científica v. 3 n.1 Março - Maio 2025

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