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Entrevista

Gilvan Müller de Oliveira

Professor da UFSC fala sobre o multilinguismo, um conceito que tem a ver com o exercício da tolerância, da cidadania e do reconhecimento da diversidade, e destaca a importância de políticas que possibilitem a preservação da diversidade linguística em um país com uma das histórias de maior repressão linguística

Sobre

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenador da Cátedra Unesco em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo (UCLPM).

Mestre em Linguística Teórica, Filosofia e História pela Universidade de Konstanz (Alemanha) e doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Fez pós-doutorados na Universidade Autônoma Metropolitana Iztapalapa (México), na Universidade de Hyderabad (Índia) e na Universidade Estatal Russa para as Humanidades (Moscou).

Fundou e coordenou o IPOL - Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (2002 a 2010) e foi diretor executivo do IILP - Instituto Internacional da Língua Portuguesa da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Cabo Verde (2010 a 2014).

FCW Cultura Científica – O que é o multilinguismo?

Gilvan Müller de Oliveira – Bem, o conceito de multilinguismo, no senso comum, se refere obviamente à percepção da presença e da convivência de várias e diferentes línguas num mesmo espaço, que pode ser uma região geográfica ou mesmo o cérebro de uma única pessoa. Essa percepção pode ser evidente para quem vive nas múltiplas regiões fortemente multilíngues do mundo e pode ser surpreendente para aqueles que são de regiões com elevados grau de monolinguismo, como é o caso dos brasileiros, que não têm muitas vezes a percepção do Brasil como um país multilíngue e desconhecem que aqui são faladas mais de 240 diferentes línguas. Como uma definição já mais estrita, podemos ver que a União Europeia, um dos maiores espaços institucionais de políticas multilíngues existentes atualmente, usa o termo multilinguismo em contraste com plurilinguismo. Considera, em seus documentos, que multilinguismo é um fenômeno social e aponta para a diversidade de línguas em uma dada sociedade, enquanto que plurilinguismo é um fenômeno individual, que aponta para (alguns ou muitos) indivíduos que sabem e usam mais de uma língua, independentemente do tipo de sociedade em que vivem. Assim, existem sociedades formadas por muitos grupos étnicos ou sociais que usam diferentes línguas, isto é, são muito multilíngues, mas isso não implica que necessariamente todos ou uma grande parte dos indivíduos saibam todas ou muitas línguas, podendo viver grandemente circunscritos ao seu grupo social. Portanto, esta pode ser uma sociedade multilíngue de plurilinguismo restrito. Várias outras configurações são possíveis. Por uma outra definição, ainda, multilinguismo seria um conceito descritivo, que simplesmente reconhece o fato da convivência de várias línguas num mesmo espaço, enquanto que plurilinguismo seria um estado de valorização positiva do multilinguismo: um estado a ser construído ou alcançado com políticas linguísticas que tratam as línguas como recursos, e que otimizam os seus usos para o benefício dos falantes e suas comunidades, superando as hierarquizações de muitos contextos que, ao contrário, tratam línguas como problemas, as desvalorizam, invisibilizam, proíbem [1]. 


Do ponto de vista epistêmico e estratégico, multilinguismo é, hoje, um paradigma para o tratamento da diversidade linguística e a ação sobre ela, paradigma associado nas políticas internas à democracia inclusiva e à superação das desigualdades sociais, muitas delas produzidas ou aprofundadas pela desigualdade linguística e, na política externa, associado à agenda de construção de um mundo multipolar, que coloque muitas línguas nos termos de troca entre as sociedades e os países, permitindo uma melhor circulação do conhecimento entre todos. Este olhar de um paradigma do multilinguismo para as línguas contrasta fortemente com os paradigmas dominantes nos séculos 19 e 20, períodos de grande violência contra a diversidade linguística, em grande parte baseada na ação dos Estados monolíngues que emergiram do nacionalismo europeu do século 19 (“Um Estado, uma Nação, uma Língua”). Os dois séculos que nos antecederam foram pródigos em ações violentas dos Estados ou outros centros de poder contra comunidades linguísticas minoritárias, levando à debilitação ou extinção de centenas de línguas ao redor do mundo, em especial nos espaços coloniais gerando perdas econômicas, epistemológicas e humanas irreparáveis.


Multilinguismo é, assim, antes de tudo um conceito político que tem a ver com o exercício da tolerância, da cidadania, do reconhecimento da diversidade e, nesse sentido, de denúncia e superação das políticas linguísticas monolíngues que tentaram – e tentam, porque muitas delas estão em curso – abafar essa pluralidade de manifestações. Como todo conceito político desse gênero tem também uma contraparte técnica, o multilinguismo como disciplina desenvolveu um conjunto de ações sobre as línguas: as técnicas do seu reconhecimento e oficialização/cooficialização, a sua equipagem tecnológica (escrita, gramática, documentação, presença na internet, inteligência artificial, etc.) e do seu ensino (currículos, formação de professores, etc.


Finalmente, o multilinguismo não se refere apenas a línguas específicas e bem individualizadas. Vê-las assim também é, de certo modo, uma herança do olhar monolíngue. O multilinguismo trata também da diversidade de modelos comunicativos. No caso do Mercosul (como organização intergovernamental), por exemplo, observamos argentinos falando espanhol com brasileiros e brasileiros falando português com argentinos: um compreende a língua do outro, sem necessidade de interpretação. Não se tratam apenas de duas línguas, o português e o espanhol funcionando, mas também da prática da intercompreensão, isto é, de entender a língua do outro e de responder na sua própria língua, dado que essas línguas são próximas e compartilham muitos cognatos. Já noutros contextos históricos e internacionais vemos a emergência de línguas de interface, como o portunhol, chamadas pelo Atlas Unesco das Línguas do Mundo (WAL) de “línguas mistas”.


FCW Cultura Científica – Neste contexto, como se situa particularmente a sua pesquisa?

Gilvan Müller de Oliveira – A minha área de pesquisa tem sido chamada de política linguística. É uma área que observa sobretudo a gestão das línguas nos diferentes países, internamente ou nas suas relações internacionais, e que tem também um caráter interventivo, de colaborar com transformações na sociedade em direção à ampliação dos direitos linguísticos, por exemplo. Hoje, é bastante central para as políticas linguísticas a garantia de manutenção ou ampliação dos espaços do multilinguismo, de maneira que organizamos as nossas pesquisas na Cátedra Unesco em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo, com sede na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Venho de uma linguística do monolinguismo no século 20, ou centrada na construção das línguas nacionais, no nosso caso o português, ou na recoleção quase colonial de dados das línguas minorizadas, sem se importar muito com o seu futuro, como no caso das línguas indígenas, ou ainda com interesses sobretudo teórico-filosóficos de compreensão da natureza da linguagem de modo geral. Era uma linguística que acreditava no “falante nativo perfeito” e, portanto, quase nem enxergávamos os falantes de línguas segundas, de línguas estrangeiras, os falantes bilíngues, os falantes multilíngues. 


Hoje, fomos obrigados a mudar o nosso ponto de vista por causa da “emergência das minorias”, inclusive linguísticas, da globalização e da ocupação dos espaços por migrantes, por conta da internet, que possibilita uma vida paralela das línguas e uma interação de múltiplas comunidades linguísticas que precisam se comunicar. Desse modo, cresceu imensamente o papel político do multilinguismo e também cresceu o horizonte da pesquisa linguística, cada vez mais parceira de outras áreas, cada vez mais transdisciplinar. Veja, por exemplo, o papel da tradução, central em qualquer sistema multilíngue: no século 20, a tradução tinha muito pouca importância nas políticas linguísticas e os tradutores raramente ouviam falar em políticas linguísticas. Hoje, a tradução escorregou quase para o centro das políticas linguísticas, porque temos diversas comunidades interagindo muito mais e uma produção de conteúdo que precisa ser localizada em diferentes línguas e em diferentes partes do mundo. Emergiu então o conceito de “políticas de tradução” e cresceram as exigências ao ‘direito à tradução’, como no caso das línguas de sinais, como Libras, ou na interpretação em situação de atendimento à saúde nos hospitais ou na justiça, como no caso da segurança pública e nos tribunais.


Os projetos de pesquisa que desenvolvo tentam acompanhar os movimentos e tensões que envolvem a criação e o desenvolvimento de políticas linguísticas em diferentes instâncias do tecido social brasileiro: políticas do governo federal ou dos municípios, de organizações internacionais ou de movimentos sociais, sempre associadas à algum aspecto da promoção do multilinguismo. Por isso, ora escrevo e atuo na formação de professores indígenas, ora sobre escolas bilíngues de fronteira, ora sobre a promoção do português no mundo ou ainda sobre o papel da inteligência artificial no futuro das línguas, entre outros. Em cada momento histórico esses focos aparentemente mudam, mas mantêm em comum este núcleo de interesse pelo movimento das sociedades ao redor das suas línguas e da visão das suas línguas como recursos importantes para estas sociedades.


FCW Cultura Científica – Qual é a importância das políticas linguísticas?

Gilvan Müller de Oliveira – As políticas linguísticas expressam a vontade e uma visão política de uma dada sociedade a respeito das suas línguas, na sua relação complexa e contraditória com o Estado. É uma das faces das políticas públicas, como é a política de educação ou de saúde ou de defesa. Como vemos o futuro do nosso país e como vamos organizar o espaço das línguas da cidadania? Que capacidades linguísticas a sociedade quer desenvolver para garantir esse futuro, em diferentes instâncias? De que modo vamos equipar as nossas línguas tecnologicamente para que sirvam melhor aos cidadãos que as falam ou que as querem aprender? Essas são algumas das perguntas a que as políticas linguísticas tentam apresentar respostas, sempre dependentes do contexto histórico e das relações de força presentes na sociedade. Os grandes países do mundo, que manejam capacidade estratégica de planejamento, desenvolvem políticas linguísticas com alcance geopolítico: realizam censos para saber quantos cidadãos falam quais línguas, letram os seus cidadãos em diferentes línguas, promovem as suas línguas no exterior em missões culturais, cooficializam outras línguas para poderem atuar sobre elas, ensinam a sua língua oficial aos novos imigrantes para garantir taxas aceitáveis de integração, fazem acordos internacionais baseados nas suas línguas comuns, entre outros. Usam as políticas linguísticas para a promoção da paz e da segurança interna, para ter mais alcance nas relações internacionais e influenciar contextos externos, e assim por diante. Sabem que as línguas são recursos, como outros recursos de que o país dispõe – a sua população, o seu território, a sua capacidade tecnológica, essenciais para o exercício da soberania. Políticas linguísticas podem ser um instrumento para a construção da democracia ou da autocracia, para garantir o futuro das minorias ou para humilhá-las e eliminá-las. São parte constitutiva do funcionamento das nossas sociedades, mesmo quando não se apresentam com esse nome e mesmo na ausência de um Ministério das Políticas Linguísticas.


Política linguística pode ser também uma área acadêmica, alocada na linguística, na ciência política ou na sociologia, e como área acadêmica chegou bastante tarde no Brasil, nomeadamente depois da democratização do país nos anos 1990, ou mais claramente só no século 21 e, até hoje, ocupa um lugar modesto nas pós-graduações do país ou nos curso de graduação em Letras ou outros. Temos apenas uma instituição especializada, o IPOL, Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística, criado em 1999, dedicado a mapear e acompanhar as políticas linguísticas em curso, a cooperar com diversas iniciativas para a reforma linguística do Estado no sentido de ampliação dos direitos linguísticos dos cidadãos brasileiros, para a equipagem das línguas brasileiras ou para a qualificação técnica dos funcionários que atuam na área das línguas. Isso não quer dizer que o Brasil não tenha mudado em relação às políticas linguísticas. Mudou sim e muito. O país é hoje muito mais aberto à pluralidade e à diversidade linguística do que há 30 anos atrás, mais órgãos e pessoas atuam nas várias frentes das políticas linguísticas e, com isso, com todos os problemas, vamos avançando. 


FCW Cultura Científica – Quais são os objetivos da Cátedra Unesco em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo, que você coordena?

Gilvan Müller de Oliveira – Como sabe, as Redes da Cátedra Unesco/Programa Unitwin foram estabelecidas em Paris, em 1992, para responder às demandas por uma cooperação mais forte entre universidades em todo o mundo. Este programa da Unesco tem por objetivo promover a cooperação internacional e a interconexão entre universidades, e cada uma das Cátedras se dedica a um ponto em particular da vasta agenda que os mais de 190 estados membros discutem no âmbito da Unesco. Desde a sua criação, as Redes da Cátedra Unesco têm desempenhado um papel crucial na promoção da colaboração acadêmica internacional. A nossa Cátedra Unesco em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo, a primeira com sede na UFSC, criada em 2018, é uma rede de pesquisa conectada com um ponto específico da agenda da Unesco que é a agenda do multilinguismo conduzida pelo IFAP, o Programa de Informação para Todos [GT Multilinguismo], que ganhou importância com o desenvolvimento da internet após a Cúpula da Sociedade da Informação, que ocorreu em Túnis em 2006, já depois da publicação das Recomendações concernentes à Promoção e Uso do Multilinguismo e ao Acesso Universal ao Ciberespaço, de 2003, o documento de mais alta hierarquia da Unesco nesta área. A partir das negociações da UFSC com a Unesco, intermediadas pelo Itamaraty, criamos a Cátedra em 2018, e contamos hoje com 33 universidades em 19 países: México, República Dominicana, Colômbia, Chile, Argentina e Brasil, nas Américas; África do Sul, Angola, Burkina Faso e Nigéria, na África; Timor-Leste, Indonésia, Índia e China, na Ásia; Rússia, França, Alemanha, Espanha e Islândia, na Europa, ensinando e pesquisando em 11 línguas diferentes. É um universo muito significativo se levarmos em conta que apenas 70 das mais de 7,5 mil línguas no mundo são usadas para o ensino superior. 


FCW Cultura Científica – Como assim?

Gilvan Müller de Oliveira – Sim, das mais de 7,5 mil línguas mencionadas no Atlas Unesco das Línguas do Mundo, apenas 1% são usadas na pesquisa acadêmica, o que pode ser um dado surpreendente para muitos, mas mostra bem a imensa desigualdade linguística que vigora no mundo. A nossa Cátedra visa, já no seu segundo período de funcionamento (2022–2026), através da pesquisa conjunta e outras atividades acadêmicas, estabelecer um diálogo permanente entre os países membros sobre as situações de multilinguismo, para que possamos aprender com a Índia ou a África do Sul, mas também eventualmente ensinar a outros países a partir das nossas próprias experiências históricas na área. Por isso, a Cátedra não perde de vista o horizonte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, a agenda do desenvolvimento 2030 do sistema da ONU. É verdade que os ODS não têm nenhum objetivo voltado às línguas e à superação das desigualdades linguísticas, mas naturalmente muitas questões linguísticas estão embutidas nas metas educacionais ou de saúde, entre outras. Gostamos de frisar, assim, que os ODS necessitariam de um 18º objetivo, que poderia ser formulado da forma “Produção de Conhecimento socialmente relevante em todas as Línguas”, o que resumiria um pouco o conjunto dos esforços em direção ao multilinguismo como agenda de desenvolvimento.

Relacionados com os ODS, estruturamos o trabalho da Cátedra em oito eixos: 

  • Multilinguismo e internacionalização; 

  • Multilinguismo e mediação intercultural;

  • Multilinguismo e educação linguística; 

  • Multilinguismo, tradução e acessibilidade; 

  • Multilinguismo, economia e direitos linguísticos; 

  • Multilinguismo e novas tecnologias de informação e comunicação; 

  • Multilinguismo, fronteiras, diásporas e migrações; e 

  • Literaturas multilíngues. 

Este último eixo foi recentemente sugerido pelos colegas da França, no sentido de observar uma transformação da própria literatura, que não visa mais apenas estabilizar línguas nacionais, as grandes literaturas em inglês ou em francês ou em português, mas, ao contrário, reconhecer na literatura situações de multilinguismo, criar novos tipos de literatura que se relacionem com várias línguas, personagens diferentes falando diversas línguas, diferentes âmbitos do livro em diferentes línguas, enfim uma série de experimentos que já vem sendo produzidos nas diferentes tradições literárias.


FCW Cultura Científica – Quais são os principais projetos de pesquisa da Cátedra Unesco em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo?

Gilvan Müller de Oliveira – Para o período em vigor estamos iniciando o desenvolvimento de dois projetos de pesquisa. O primeiro se dedica à discussão de um Quadro Comum de Referência para as Línguas (QCRL) no âmbito de um multilateralismo aberto. Os quadros comuns são tratados internacionais para dar o mesmo tratamento às línguas e usar os mesmos critérios para avaliar o aprendizado de todas as línguas oficiais de um conjunto de países, como fez, por exemplo, a União Europeia com o Quadro Comum Europeu de Referência.  Mas é um quadro de multilateralismo fechado, isto é, só podem participar plenamente as línguas dos membros da União Europeia. A criação de um QCRL num mundo cada vez mais multipolar coloca vários desafios. Precisamos acomodar uma gama mais ampla de línguas e contextos culturais para além dos blocos regionais. Além disso, o multilateralismo aberto abrange línguas com ensino e tradições descritivas diversas, operando em ambientes com níveis de alfabetização variados, resultando numa elevada heterogeneidade. Isto requer uma abordagem flexível para dar conta da diversidade de paisagens linguísticas e sistemas educacionais em todo o mundo. Um quadro desse tipo pode ser associado aos BRICS, por exemplo, mas sem levar em conta apenas as suas línguas oficiais. Tínhamos até o ano passado apenas quatro línguas oficiais dos BRICS – português, inglês, chinês e russo – que, juntas, representam mais de 2,7 bilhões de falantes. E, agora, com o ingresso dos novos países nos BRICS+, entram o árabe da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, o farsi do Irã e o amárico da Etiópia. Com tudo isso, e considerando que cada um desses países é altamente multilíngue, precisamos de um tratado linguístico de multilateralismo aberto que permita a inclusão de cada vez mais países, de cada vez mais línguas, também as línguas com menos falantes, as línguas menos preparadas tecnologicamente, justamente para atingir o objetivo da Unesco de que “ninguém deve ficar para trás”.


Outro projeto da Cátedra dedica-se à reflexão sobre como construir uma universidade multilíngue, a partir da observação de iniciativas nessa direção em várias partes do mundo e a partir das experiências das nossas próprias universidades. Esse projeto arranca com um curso de pós-graduação – ou diplomado – como se diz em espanhol, sobre políticas linguísticas para o multilinguismo, sediado na Universidade de Antioquia, na Colômbia, um de nossos dos membros mais recentes. Usaremos o curso, com 96 horas-aula, como laboratório para este projeto.


FCW Cultura Científica – Como será essa iniciativa?

Gilvan Müller de Oliveira – Ela funcionará em um sistema de curso que chamamos OMMIP (Online, Multilíngue, Multidisciplinar, Interinstitucional e Pluricontinental), com estudantes e professores de vários países. É um sistema online em que estudantes e professores de toda a Cátedra, em várias partes do mundo, trabalham juntos e podem lecionar em português, espanhol, francês ou inglês, conforme a preferência e possibilidades dos professores. Sempre que um professor fala em uma língua o PowerPoint está em outra e há diversas iniciativas dos doutorandos com traduções relâmpagos pelos chats. O professor pode explicar um diferente tópico em mais de uma língua. Os alunos interagem em um ambiente internacionalizado, podem fazer perguntas em qualquer uma das quatro línguas. O professor apresenta bibliografia em pelo menos três línguas e os estudantes podem escrever os trabalhos finais também em qualquer uma das quatro línguas ou até em outras, se houver concordância por parte dos professores. Assim, o ensino se converte ao mesmo tempo em uma iniciativa de internacionalização, em uma metodologia para o aprendizado de línguas, em um diálogo intercultural e, finalmente, a observação deste funcionamento se converte num projeto de pesquisa, detona as questões que serão abordadas pelos vários grupos de trabalho. Já experimentamos o sistema em disciplinas da UFSC durante a pandemia, quando essa tecnologia foi gerada. Depois, houve um recuo das universidades brasileiras com a volta ao ensino presencial, e ficou mais difícil manter a iniciativa. Entretanto, como a Cátedra é uma rede internacional, uma das suas vantagens é que o trabalho pode continuar em outro lugar. Então, esperamos ter cerca de 200 estudantes nesse curso, que deve arrancar ainda em 2024 e tem financiamento da Universidade de Stirling, na Escócia. Além dos projetos de pesquisa, a Cátedra se dedica às publicações mais diversas. Neste momento, organizamos um volume na Índia sobre Políticas Linguísticas para o Multilinguismo no Sul Global, com artigos sobre internacionalização, tradução e educação linguística. 


FCW Cultura Científica – Poderia falar sobre a diversidade linguística no Brasil, de sua repressão à maior aceitação em tempos recentes?

Gilvan Müller de Oliveira – A origem do Brasil como Estado envolve uma forte tradição de repressão linguística advinda da tradição colonial portuguesa, que se iniciou na conquista do sul de Portugal aos árabes. O Brasil teve uma das histórias de maior repressão linguística na América Latina e no mundo. O nacionalismo português foi e tem sido sobretudo um nacionalismo linguístico. A língua teve importância na conformação da identidade portuguesa e na sua geopolítica colonial, como ressalta Carlos Alberto Faraco na sua História Sociopolítica da Língua Portuguesa. O livro apresenta e discute documentos do rei proibindo o árabe e o hebraico em Portugal – mas até o latim nas receitas médicas – em um período ainda bem inicial da história do reino. Essa visão monolíngue vai se projetar em uma legislação de opressão linguística que vai se estender pelos séculos seguintes, em diferentes contextos. O Diretório dos Índios do Marquês de Pombal, redigido 1755 e implementado em 1757, por exemplo, proibiu a língua geral amazônica, o nheengatu, com vistas a substituí-lo pelo o português como língua colonial na Amazônia. Essa tradição se prolonga e se renova no Estado Nacional brasileiro depois da independência. Estará presente na maior campanha de repressão linguística do século 20 brasileiro, que começa em 1913 e tem seu ponto alto no Estado Novo (1937-45), voltada contra as línguas de imigração, muito especialmente o alemão. Localizamos 214 páginas de legislação federal e estadual (e até municipal) contra as línguas de 1913 a 1945, e o principal foco dessas leis foi o Sul do Brasil, sobretudo o alemão, o italiano, e o polonês. Inclusive a Universidade Federal de Santa Catarina, ainda que muita gente não goste de falar sobre isso, é a única universidade do Brasil que nasceu de um campo de concentração, o Campo de Concentração da Trindade, que funcionou de 1937 a 1945 e onde ficaram internados 525 cidadãos brasileiros, normalmente de origem alemã, uns julgados pela lei de segurança nacional, outros deixados ali sem julgamento, uma parte expressiva presa por ter falado alemão ou por ter sido denunciada por falar alemão, ou ter livros em alemão ou em outras línguas. Da fundação do Brasil, da criação do Estado brasileiro, até a redemocratização em 1988, temos uma continuidade ideológica e atuarial de repressão linguística, de descrédito e desvalorização das outras línguas. 


Foi somente com a Constituição de 1988 que começou uma lenta mudança com reconhecimento parcial do multilinguismo. Assim, temos os artigos 210, 230 e 231 da Constituição Federal, que reconhecem pela primeira vez aos indígenas o direito às suas línguas. Isso ocorreu pelas lutas internas do Brasil, que foram muito intensas por parte dos indígenas e de outros grupos, e muito também pelo fato de o Brasil ter aderido a certas resoluções e convenções, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que obriga o país signatário, por um viés do direito dos trabalhadores, a reconhecer as línguas e culturas indígenas na constituição. A partir desse momento histórico da Nova República, começaram a se desenvolver timidamente políticas da diversidade. Por exemplo, atuamos fortemente, desde 2002, na criação da tecnologia social da cooficialização de línguas em nível municipal. Hoje, temos no Brasil 51 municípios com 27 línguas cooficializadas, não só línguas indígenas mas também línguas de imigração, o que é uma novidade muito grande, porque outros países como Bolívia ou México reconhecem a diversidade linguística no campo indígena mas não reconhecem, por exemplo, a contribuição das línguas de imigração na constituição da identidade nacional.


Essa tecnologia de cooficialização de línguas em nível municipal é propícia para o tipo de multilinguismo do Brasil, com muitas línguas mas faladas por grupos pequenos, e que só têm maiorias relativas no nível municipal, mas nunca no nível estadual e muito menos no federal. Hoje, não temos nenhuma região geográfica do país sem línguas cooficializadas em nível municipal. As políticas no Brasil têm se desdobrado para abarcar um universo mais plural, com línguas indígenas, as línguas de imigração, as línguas de sinais que não somente libras, línguas afrobrasileiras, certas línguas crioulas que são faladas no território brasileiro, então temos uma base um pouco mais ampla para alianças entre os grupos minoritários linguísticos no Brasil. E, agora, recebemos uma nova migração externa, com haitianos, venezuelanos, afegãos e sírios, que vêm colaborar na constituição e na expansão desse multilinguismo. 


FCW Cultura Científica – Qual é o resultado da repressão linguística no Brasil?

Gilvan Müller de Oliveira – Temos uma tradição secular de repressão linguística que reduziu o número de falantes de outras línguas no país a uma minoria. Isso fez com que não mais de 1,5% dos brasileiros sejam atualmente depositários de um conjunto de mais de 240 línguas, considerando as cerca de 180 indígenas mais as línguas de imigração, línguas de sinais, etc. Essas 240 línguas fazem do Brasil o nono país mais multilíngue do mundo, mas com uma característica histórica muito importante, de que são faladas por apenas uma minoria muito pequena dos cidadãos e que têm baixa visibilidade para a maioria monolíngue em português. Normalmente, elas não aparecem na televisão nem nos currículos das escolas. São línguas ameaçadas pela pressão da maioria monolíngue e pelas políticas de Estado, como as políticas educacionais. Muitas são vítimas também de um direito heterogêneo. O que quer dizer isso? Enquanto certos países têm um direito linguístico que abarca toda a sua diversidade linguística, nós temos direitos linguísticos para as línguas indígenas mas não temos direitos linguísticos para as línguas de imigração, por exemplo, e temos outros direitos para línguas de sinais que não são os mesmos direitos para as línguas indígenas, porque cada um desses processos teve uma gênese histórica diferente, dentro de um enquadre ideológico e político diferente. O Brasil tem no seu multilinguismo algumas línguas bastante faladas que nasceram aqui (como línguas autônomas), como o hunsrückisch e o talian, mas cujos falantes tecnicamente não têm direito à educação bilíngue pública, por exemplo. Somente agora e com muito custo elas figuram de um modo ou de outro em algum documento do governo brasileiro. 


O hunsrückisch (hunsriqueano) é a grande língua brasileira da imigração alemã que se formou no Brasil e que emergiu da vida em comunidades rurais no sul do Brasil a partir de 1824. Em 2024, comemoramos o bicentenário da imigração alemã no Brasil e a língua, em suas variedades, é falada ininterruptamente no Brasil em nível comunitário há duzentos anos, apesar de toda a repressão. A língua que veio em 1824, que formou a base do hunsrüsckisch, não foi o alemão padrão (hochdeutsch), embora essa último estivesse presente em situações formais e na escrita (enquando a escrita não foi proibida e reprimida) mas foi o que na Alemanha é considerado um dialeto na fronteira com a França, que se estabeleceu como língua geral da imigração alemã no Rio Grande do Sul. Como o Rio Grande do Sul foi o pólo mais expansionista da colonização alemã, depois ocupando regiões de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Rondônia, Bahia, a migração interna brasileira levou o hunsrückisch para várias regiões do Brasil e até para os países vizinhos. Então esta variedade, que na Alemanha não tinha qualquer status, porque o país privilegiava na política de língua única só o alemão padrão, se generalizou no Brasil. Com a repressão linguística ao alemão, sobretudo no período Vargas, quando foram queimados os livros, proibidas as missas, fechadas as escolas, demitidos professores de alemão padrão, descontinuados os seminários de formação de professores, quando foram fechados mais de 70 jornais que funcionavam em língua alemã, a língua alemã escrita desapareceu grandemente dos núcleos urbanos. Na vida rural, entretanto, o hunsrückisch sobreviveu na oralidade das interações familiares e locais, no mundo do trabalho agropastoril, e avançou para novas geografias, acompanhando a fronteira agrícola. Há pouco tempo, o hunsrückisch foi reconhecido pelo Estado Brasileiro como Referência Cultural Brasileira por meio do Inventário Nacional da Diversidade Linguística, instituído pelo Presidente Lula em 2010, ligado ao Departamento de Patrimônio Imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), no Ministério da Cultura, e que reconhece a diversidade linguística brasileira através do conceito de patrimônio imaterial. O inventário do hunsrückisch mapeou a língua no Brasil e foi realizado pelas equipes da UFRGS e do IPOL e fornece todas as informações previstas no Guia Metodológico do INDL para o seu reconhecimento como uma língua brasileira, como referência cultural brasileira.


FCW Cultura Científica – O que é a patrimonialização de uma língua?

Gilvan Müller de Oliveira – O Brasil foi pioneiro na patrimonialização de línguas, isto é, em atribuir valor de referência cultural para uma língua no âmbito da ampliação da noção de patrimônio, que passa a incluir o universo imaterial: as músicas, as práticas, os lugares, as cerimônias e, claro, as línguas de um país. O Iphan é o responsável pela patrimonialização, que é realizada por grupos de pesquisas de universidades, institutos ou movimentos sociais. O Iphan dialogou com diversos setores do governo e da sociedade civil a partir de 2005 para construir essa política, hoje consolidada, com uma metodologia clara para a produção dos dados e com mais de 20 línguas inventariadas, a maioria delas esperando pela aprovação dos respectivos estudos pelas instâncias competentes. Tornar-se Referência Cultural Brasileira tem diversas consequências, é uma expressão do reconhecimento do Estado que ajuda os próprios falantes a valorizarem as suas línguas, a deixarem de ter vergonha delas (essa vergonha de falar outra língua que foi historicamente formada no Brasil) e a utilizarem para a sua segurança epistemológica, econômica e social. É mais uma política linguística, mais um instrumento a favor do multilinguismo brasileiro. Com os programas de patrimonialização e de cooficialização municipal, línguas como o hunsrückisch e o pomerano (pomerisch) mas também o talian, que na Alemanha e na Itália eram considerados dialetos, ganham no Brasil estatuto legal como línguas, emancipam-se para devires futuros em uma base geográfica sul-americana. As três línguas citadas são hoje referência cultural brasileira e estão cooficializadas em diversos municípios em vários estados. 


FCW Cultura Científica – Essas línguas derivadas da imigração europeia têm semelhantes na Europa

Gilvan Müller de Oliveira – Sim, por exemplo, no caso do talian, o vêneto, que é a sua contraparte europeia, é falado na norte da Itália, onde tem um bom grau de vitalidade. O pomerano já tem um quadro diferente, porque a Pomerânia era um reino independente que foi anexada à Prússia em 1817 e depois integrou a Alemanha, com a derrota alemã na Segunda Guerra Mundial, a região foi cedida à Polônia para compensar a perda das áreas que a União Soviética tomou à Polônia e que foram integradas à Ucrânia. A Polônia expulsou os pomeranos depois da guerra, e grande parte foi para a Alemanha, onde com o tempo passaram a falar alemão. O Brasil tem hoje, assim, a maior comunidade de falantes de pomerano do mundo, que chegaram ainda na metade do século 19. No caso do hunsrüsckisch, o Pfälzisch continua sendo falado na região de Mainz, na fronteira com a França, no estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha, mas, aqui, com 200 anos de brasilidade, de interações com o português, com outras línguas, em um ambiente cultural e ecológico totalmente diferente, com comunidades que praticam outras formas de vida também, ele se tornou bastante diferente e adquiriu caráter de representação de uma das culturas brasileiras. Por isso, se justifica inclusive o Iphan ter incluído no guia metodológico do INDL uma cláusula que diz que uma língua pode ser reconhecida como língua brasileira se estiver aclimatada há pelo menos três gerações no país. Não é qualquer língua que chega e já se torna uma língua brasileira. Existe normalmente uma perda linguística da primeira para a segunda e da segunda para a terceira geração, mas se a língua se mantiver na terceira geração significa que ela se aclimatou, que ela encontrou um nicho de reprodução e começou a atuar no ambiente brasileiro como uma língua de permanência. É o caso de muitas outras línguas, como o árabe, o coreano, o chinês, e muito fortemente o japonês. O japonês está aqui há 116 anos também com uma vitalidade importante. Nesse momento estamos trabalhando com os dados das línguas brasileiras para o Atlas Unesco das Línguas do Mundo, que vai fornecer uma visão mais detalhada do multilinguismo brasileiro, em consonância com as demais políticas em curso.


FCW Cultura Científica – Recentemente, outras línguas têm ganhado bastante espaço na internet, indo na contramão do que se pensava antes, de que o inglês seria a língua franca digital. 

Gilvan Müller de Oliveira – O chamado domínio do inglês tem um componente real e um ideológico. O componente ideológico faz crer que o domínio e a expansão do inglês são imparáveis, são necessários e que essa é uma situação incontornável, mas isso não é verdade. As tecnologias e uma série de mudanças geopolíticas têm permitido um crescimento do multilinguismo na internet. Dou um exemplo: eu trabalho com um pesquisador francês chamado Daniel Pimenta, que dirige o Observatório da Diversidade Linguística e Cultural da Internet (Obdilci), instituição membro da nossa Cátedra Unesco. Ele desenvolve há várias décadas uma metodologia para mapear a presença das línguas na internet. Hoje, há somente três grupos no mundo com tecnologia para mapear as línguas na internet, o que se tornou muito difícil por causa da expansão da rede, que hoje é tão grande que qualquer esforço de varredura para mapear as línguas por varredura seria caríssimo ou impossível. A metodologia desenvolvida permite emitir relatórios sobre as línguas e sua presença na internet a partir de quase 1,5 mil microindicadores. No trabalho que realizamos pela Cátedra Unesco sobre a presença do português na internet, para o Instituto Guimarães Rosa, do Itamaraty, por meio do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, constatamos que a série histórica da presença do inglês na internet é decrescente. O inglês já ocupou 90% no início da internet mas hoje ocupa cerca de 21%. Por que o inglês cai constantemente na internet? Porque outras línguas entram na internet e crescem proporcionalmente mais depressa. Não é porque os conteúdos em inglês diminuam, eles continuam crescendo, mas outras línguas crescem mais rápido à medida que a brecha digital nos demais países é superada. 


Uma das línguas que cresce em ritmo importante é o árabe, que teve muitas dificuldades na internet porque, entre outras razões, a internet é alfabetocêntrica, todos os protocolos foram montados para o alfabeto latino. Para línguas que não usam o alfabeto latino, essa era uma das barreiras que impediam o crescimento. Quando foi resolvida essa questão, o árabe pode emergir muito rapidamente na internet, dando expressão ao que a língua efetivamente é, quer dizer uma língua falada por mais de 320 milhões de pessoas em dezenas de países e a língua da religião que mais cresce no mundo, que é o islamismo. Então, é preciso distinguir o que é a realidade do domínio do inglês e o que é a ideologia do domínio do inglês. Vários indicadores mostram que a presença e a importância do inglês vem diminuindo em muitos campos. Apenas em alguns campos o inglês cresce em detrimento de outras línguas, como na publicação científica, que é dominada por grandes editoras europeias e norte-americanas que privilegiam o inglês e criam canais para quase forçar os acadêmicos do mundo a publicar em inglês nas revistas que são indexadas nas bases de dados dessas editoras.


FCW Cultura Científica – Como está a publicação de artigos científicos em outras línguas, como o português?

Gilvan Müller de Oliveira – Se pegarmos a produção científica de modo geral, vemos que há uma crise na produção científica em alemão, nas línguas dos países da Escandinávia, em francês e em muitas outras línguas. O governo holandês recentemente implementou medidas para manter alguma produção científica em holandês. O português e o espanhol são das poucas línguas em que a produção científica ainda continua crescendo. O português e o espanhol crescem por causa da produção crescente na América Latina e agora dos países africanos de língua portuguesa, que estão criando várias universidades. Nossas práticas de publicação não estão tão vinculadas às bases do norte global, porque somos pioneiros, na América Latina, na publicação open access. Nós desenvolvemos plataformas como a SciELO e a Latindex, que trabalham com acesso aberto e têm oferecido muitas possibilidades de publicação e visibilidade para a pesquisa no Brasil e na América Latina, sem precisar se submeter às regras dos poucos jornais indexados nas bases dos chamados países centrais. Mas isso varia muito entre as áreas do conhecimento, assim, ciências médicas, engenharias e ciências naturais têm um índice muito mais alto de publicação em inglês no Brasil (mesmo em periódicos brasileiros) do que as ciências humanas, por exemplo.


FCW Cultura Científica – Poderia falar sobre o crescimento do português no mundo? 

Gilvan Müller de Oliveira – Bem, o português é uma língua internacional que continua crescendo rapidamente, ganhando importância como língua africana, na medida em que o crescimento demográfico no sul da África, em Angola e Moçambique, é muito maior do que no Brasil hoje. Hoje, o Brasil tem 76% dos falantes de português, mas até o fim do século a África terá a maioria dos falantes de português do mundo. Portugal tem 3,9% dos falantes de português e terá apenas 1,7%. O português é uma língua internacional que nasceu na Europa, se tornou basicamente uma língua sul-americana e agora faz uma transição para se tornar uma língua africana, porque a África é o continente em que a população mais cresce, em que há mais urbanização de população neste momento e, portanto, as línguas que estão na África vão se tornar as grandes línguas do século 22. As línguas que não estão na África vão entrar em um processo grande de decadência demográfica, como é o caso do japonês, do alemão, do russo ou do italiano, faladas em países que vivem um processo de perda forte de população, portanto com efeito sobre as línguas e sua geopolítica. Esse é apenas um dos aspectos do crescimento do português em termos de falantes, mas poderíamos abordar a questão de muitas outras formas, pensar por exemplo o crescimento do português como língua estrangeira em muitos contextos. É uma questão muito rica e complexa.


FCW Cultura Científica – Qual é a importância da tradução e das novas tecnologias de tradução para o crescimento da importância do multilinguismo?

Gilvan Müller de Oliveira – A tradução como tecnologia linguística é um dos pilares do multilinguismo. A tradução eletrônica, muito especialmente, é, assim, uma das áreas mais estratégicas do século 21. À medida que aumentam as possibilidades de uso da minha língua porque o que digo ou escrevo pode ser traduzido para uma infinidade de outras línguas, não vou mais ser obrigado a falar outra língua ou escrever em uma língua que domino menos. Ao mesmo tempo poderemos ter acesso a uma produção cultural e científica muito mais diversa e variada, baseada na experiência histórica de muitos povos em diferentes geografias. Políticas de tradução adequadas têm uma importância muito grande para a justiça social e epistemológica, questão pesquisada amplamente no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução (PGET) da UFSC, em que atuo. Podemos ver uma linha entre multilinguismo, tradução e uso de línguas francas, como o inglês ou outras. No primeiro pólo atua-se para permitir ao máximo a circulação das diversas línguas, no segundo para otimizar a tradução entre elas, e no terceiro para possibilitar o máximo de aprendizado de línguas francas. O multilinguismo, assim, não é o combate contra certas línguas, mas obviamente a expansão de um pólo pode provocar a retração de outro, questão a que devemos estar atentos. Já falamos no início da entrevista sobre o potencial do multilinguismo brasileiro. No caso das línguas francas, se tomarmos o inglês, vemos que na maioria dos contextos não anglófonos, ela é uma língua de elite, especialmente em países como China, Indonésia, Brasil, Rússia, e mesmo o México que está muito próximo dos Estados Unidos. No caso do Brasil, o British Council avalia que são 2,5 milhões de brasileiros apenas que falam inglês. Se fizermos um exercício de ampliação desse número, sendo muito generosos, ainda assim não chegaríamos a um número de 10 milhões, mesmo com o sistema educacional focando quase exclusivamente o inglês como língua estrangeira. Isso ocorre na maioria dos países que não são anglófilos. Por isso, para uma ampliação das relações de internacionalização dos brasileiros, precisaríamos de um conjunto mais complexo de estratégias, entre elas apostar nas políticas de tradução. A tradução é uma área tecnológica de alto e de rápido desenvolvimento, que tem conseguido incluir um número cada vez maior de línguas no sistema de tradução eletrônica, especialmente a partir da tecnologia chamada zero-shot machine translation, a “tradução automática de tiro zero”, um tipo de tradução que não demanda mais parear línguas, treinar a máquina para fazer a tradução de pares de línguas entre si. Essa nova tecnologia trabalha com redes neurais, o que permite traduzir sem treinar, a partir de gramáticas e materiais monolíngues. 


Com o treinamento linguístico antes necessário, que é muito caro, línguas com menos recursos econômicos, que não têm governos que as sustentem, teriam muita dificuldade em ser traduzidas. Acreditava-se, inclusive, que os custos da inclusão digital acabariam levando à morte digital das línguas menos equipadas. Para, digamos, inaugurar essa nova tecnologia, a Google incluiu três línguas americanas no Google Tradutor em 2022, que foram o quechua, o aimara e o guarani e tudo indica que o ritmo de inclusão de novas línguas vai crescer. Assim, pelas razões nomeadas a tradução é absolutamente essencial como geopolítica para o multilinguismo e a diversidade linguística, mas vemos que os investimentos em tradução eletrônica e outros desenvolvimentos digitais das línguas estão concentrados em pouquíssimas empresas, as Big Techs, pertencentes a alguns poucos países do norte global. Isso coloca várias questões éticas, filosóficas e políticas, do tipo: em que medida as Big Techs se tornam as depositárias das políticas linguísticas, com o poder de permitir ou não certos serviços linguísticos a certos povos ou partes do mundo? Os governos, eleitos democraticamente, são cada vez menos capazes de atuar em defesa da sua cidadania e das políticas que são definidas pelo voto democrático. Certamente ainda, a capacidade de tradução implica para essas empresas a capacidade de conquista de novos mercados, porque cada língua é um mercado e dá acesso a mercados específicos. A customização, a localização de produtos e processos nessas diversas línguas interessa para as empresas, que podem chegar a novos consumidores, especialmente para empresas que lidam com publicidade. É, como falei, um cabo de guerra, com o multilinguismo em um pólo, as línguas francas no outro pólo, e no centro do processo a tradução, permitindo o crescimento e a circulação de conteúdos, com grandes repercussões sociológicas de todo tipo. A internet eliminou a fronteira entre países para a circulação de bens digitalizados, e a tradução eletrônica está eliminando uma fronteira muito mais poderosa, que é a fronteira entre línguas. Esses fenômenos de eliminação de fronteiras trazem estranhamentos e reações de vários tipos para parcelas da população do mundo.  Recentemente, vimos na imprensa notícias sobre o temor de pais portugueses sobre filhos pequenos que assistem a youtubers brasileiros e que, em vez de falar como portugueses, estão falando cada vez mais como brasileiros, a ponto de certos pais pagarem fonoaudiólogos para “ensinarem” crianças de dois anos a falar como um português e não como um brasileiro. Muitos novos fenômenos emergem dessas relações, a ponto de precisarmos cada vez mais de uma sociolinguística do ciberespaço para compreender o presente e o futuro das línguas.


FCW Cultura Científica – A inteligência artificial e as novas ferramentas computacionais podem ajudar na expansão do multilinguismo?

Gilvan Müller de Oliveira – Sem dúvida. Qual é a grande utopia linguística e tecnológica do século 21? É a comunicação com e intermediada pela máquina: conversar com a máquina sem sentir que estamos falando com um robô, e entre nós mas intermediados pela máquina, seja porque falaremos em línguas diferentes e a máquina traduzirá, seja porque poderá “maquiar” e “adensar” a nossa fala, ou ainda outras atuações. Essa intermediação, que permite a remidiação linguística, transmuta o produto linguístico de uma mídia para outra, outra e depois outra. Transforma fala em texto, texto em fala ou texto em imagem e ainda a comunicação usando línguas diferentes, entre tantas possibilidades. Este é possivelmente o grande horizonte do século. Nesta utopia, neste momento, estamos fazendo a transição para a inteligência artificial, a ponta atual da revolução tecnológica. O pesquisador francês Sylvain Auroux diz que as grandes revoluções tecnológicas do mundo tiveram sempre inicialmente um caráter linguístico: 1) a invenção da escrita; 2) muitos séculos depois a invenção da gramática; 3) depois de 600 anos a invenção da prensa de tipo móvel de Gutenberg, que possibilitou a produção industrial do texto que, por sua vez, permitiu a alfabetização e a escolarização universal. A maioria das línguas não passou por isso: não teve escrita, não teve gramática, muitas nem publicações, não teve alfabetização, não teve letramento. Agora, estamos passando por uma quarta revolução, absolutamente disruptiva, que é a digitalização das línguas. E o tópico central do momento é a inteligência artificial, que abre inúmeras possibilidades e que vai implicar que as línguas menos equipadas, que não passaram pelas demais revoluções tecnológicas, não consigam entrar nessa fase, por não terem normas estabelecidas, ou não terem tradição textual que permita a constituição de corpora massivos que possam ser processados na inteligência artificial. A AI, contraditoriamente, ao mesmo tempo que traz esses perigos abre muitas oportunidades para a superação dessa e de outras brechas tecnológicas, mas não há dúvida que a AI traz o multilinguismo para o centro do palco político e operacional. Não há como separar os dois termos.


FCW Cultura Científica – Quais são as vantagens e riscos desse tipo de uso da inteligência artificial?

Gilvan Müller de Oliveira  A inteligência artificial permite incluir novas línguas na tradução eletrônica e, com isso, atender à demanda de falantes por conteúdos nas suas línguas que antes não existiam. Permite digitalizar manuscritos de tradições a que os próprios falantes não tinham acesso, pois estavam em algum arquivo inacessível. Permite ainda atuar no ensino das línguas, personificando o processo, com aplicativos e tutores virtuais. A IA permite acelerar a análise de dados linguísticos para a constituição de gramáticas que serão embutidas nos aplicativos de escrita, por exemplo, em dicionários utilizados nas traduções eletrônicas. Permite usar ferramentas colaborativas de trabalho, colocando em contato falantes dispersos de uma língua – pense nos inuítes, no Canadá, por exemplo, habitantes de vastos territórios, mas que hoje podem almoçar juntos usando a tecnologia e praticar a sua cultura na sua língua inuktitut. Ou nos falantes de línguas amazônicas separados em territórios distintos muito longe uns dos outros. A IA permite ainda o desenvolvimento de aplicativos para resolver problemas do dia a dia, como acessar um banco ou um médico utilizando a sua própria língua, ou seja, a organização dos serviços linguísticos personalizados. Há todo um otimismo na revolução digital das línguas mas obviamente há também temor e a Unesco expressa bem essa dicotomia, o otimismo das possibilidades inéditas que se abrem e o medo de que, como todas as tecnologias anteriores na história humana, elas sejam criadoras e aprofundadoras de desigualdades, e que em vez de colaborar para a diversidade linguística elas colaborem para sua eliminação. A história está em pleno desenvolvimento e nós temos pela frente o desafio de transformar as tecnologias linguísticas em tecnologias pró-ser humano, pró-falantes, pró-comunidades e pró-diversidade cultural e linguística, identificando os perigos e atuando no sentido contrário.


 

[1] “Se as fronteiras, como outros espaços, são multilíngues, isso não quer dizer necessariamente que sejam plurilíngues. Temos feito a distinção entre o termo que aponta para a presença de várias línguas numa localidade ou sociedade – o multilinguismo, um termo descritivo, portanto. Plurilinguismo, em contraste, seria o termo que aponta para uma valorização positiva deste multilinguismo, a sua utilização como efetivo recurso para a vida das pessoas envolvidas nas práticas comunicativas em questão, para as instituições e para o país: somente neste caso falamos de plurilinguismo. Assim, as nossas fronteiras são espaços multilíngues, mas dada a geopolítica dos Estados e muito especialmente do Estado brasileiro, recém começam a ser espaços plurilíngues.”

OLIVEIRA, Gilvan Müller de. "Línguas de fronteira, fronteiras de línguas: do multilinguismo ao plurilinguismo nas fronteiras do Brasil." Revista GeoPantanal 11.21 (2016): 59-72.

 



Revista FCW Cultura Científica v. 1 n 4 novembro 2023 - janeiro 2024

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