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Viva a democracia! Viva a liberdade!

há 13 horas
6 min de leitura

Em discurso na cerimônia de entrega dos Prêmios FCW 2026, Carlos Vogt, diretor-presidente da Fundação Conrado Wessel, destaca a transição energética, os direitos humanos e as migrações como desafios interligados e celebra a contribuição da ciência, da cultura e da fotografia para compreender o Brasil e transformar a sociedade


Discurso proferido na cerimônia de entrega dos Prêmios FCW de 2026

Carlos Vogt 29 de outubro de 2026


Caríssimos amigos, boa noite.

É uma honra e uma grande alegria abrir uma nova cerimônia de entrega dos Prêmios da Fundação Conrado Wessel, reunindo pessoas que compartilham conosco a convicção de que a ciência, a cultura e a arte são forças essenciais para compreender o mundo, ampliar nossos horizontes e construir um futuro melhor.

Todos os anos, quando me reúno com o Conselho Curador da Fundação – José Roberto Drugowich de Felício, Vahan Agopyan, Soraya Smaili, Rubens Belfort Jr. e Franco Maria Lajolo – para decidir quais serão os temas do Prêmio, procuramos identificar e valorizar não apenas a excelência de trajetórias individuais, mas também questões que nos dizem respeito como sociedade.

Este ano, essa escolha tem um significado especial.

Para o Prêmio de Ciência, escolhemos como tema “Transição Energética”.

Para o Prêmio de Cultura, “Migrações – Direitos Humanos”.

Um tema remete à ciência, à tecnologia, à energia, à economia e ao futuro ambiental do planeta. 

O outro nos conduz à mobilidade humana, às fronteiras, ao acolhimento, à exclusão, à dignidade e aos direitos fundamentais.

São temas profundamente conectados.

A transição energética é um dos grandes desafios do nosso tempo, porque dela depende a capacidade de enfrentar as mudanças climáticas e construir modelos de desenvolvimento menos dependentes de fontes altamente emissoras de carbono.

As mudanças ambientais, por sua vez, têm consequências humanas concretas. Elas podem afetar territórios, meios de subsistência, segurança alimentar, disponibilidade de água e condições de vida. Podem aprofundar desigualdades e contribuir para deslocamentos populacionais.

Uma transição energética que não considere as pessoas, os territórios e as desigualdades também corre o risco de produzir novas formas de exclusão. 

É justamente nesse ponto que a Fundação Conrado Wessel procura cumprir sua missão, ao reconhecer pessoas que, por meio da ciência e da cultura, ajudam o Brasil a enfrentar os desafios do presente e a imaginar possibilidades para o futuro.

E é com essa perspectiva que recebemos, neste ano, dois premiados extraordinários.

Em Ciências – Transição Energética, temos a honra de premiar Mario Murakami.

Diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do CNPEM e presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, Murakami construiu uma trajetória científica voltada ao desenvolvimento de soluções sustentáveis. 

Sob sua liderança, pesquisas em bioenergia, bioeconomia e biorrenováveis enfrentam desafios estratégicos para o país, incluindo o aproveitamento de resíduos agroindustriais e a bioconversão microbiana.

São pesquisas que mostram como a ciência de fronteira pode deixar de ser apenas conhecimento sobre o mundo e transformar-se também em capacidade de inovação.

A trajetória de Mario Murakami expressa uma característica que a Fundação Conrado Wessel considera fundamental: a capacidade de estabelecer pontes.

Pontes entre ciência básica e inovação.

Entre universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo.

Entre conhecimento científico e desenvolvimento sustentável.

E, sobretudo, entre aquilo que sabemos hoje e aquilo que precisamos ser capazes de fazer amanhã.

O Brasil possui condições singulares para participar dessa transformação: uma enorme biodiversidade, capacidade de produção de biomassa, tradição científica e uma experiência acumulada em bioenergia.

Reconhecer essa potencialidade não significa ignorar os desafios. Significa reconhecer que ciência, pesquisa de longo prazo e inovação são instrumentos indispensáveis para enfrentá-los.

É isso que celebramos ao entregar o Prêmio FCW de Ciências a Mario Murakami.

 No Prêmio FCW de Cultura, o tema deste ano é “Migrações” e talvez nenhum outro tema nos coloque de maneira tão direta diante de uma questão essencial: o que significa reconhecer no outro a mesma dignidade que reconhecemos em nós mesmos?

Migrar é uma experiência humana. 

Indivíduos, famílias e povos sempre se deslocaram em busca de segurança, trabalho, liberdade, oportunidades e melhores condições de vida. 

Todos nós, somos migrantes. 

“Migrações” é uma questão de tamanha urgência que escolhemos esse mesmo tema para a segunda edição do prêmio Through Southern Lenses, que realizamos com a TWAS e que estamos lançando mundialmente hoje.  

“Migrações” é também o tema da próxima edição da nossa Revista FCW Cultura Científica, que estamos produzindo com orientação e coordenação das professoras Ana Carolina Maciel e Marie-Caroline Saglio. 

As migrações ganharam uma dimensão que nos desafia profundamente. 

Guerras, conflitos, desigualdades, perseguições, crises econômicas e transformações ambientais continuam produzindo deslocamentos e situações de vulnerabilidade.

Diante dessas circunstâncias, uma sociedade é também julgada pela maneira como recebe aqueles que chegam.

É nesse território que se encontra a trajetória de Padre Júlio Lancellotti, nosso Prêmio FCW de Cultura de 2026.

Sua história de atuação social atravessa décadas. Antes mesmo de sua ordenação sacerdotal, trabalhou com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e atuou no Centro de Apoio ao Imigrante, no Brás.

A partir de 1986, à frente da Paróquia de São Miguel Arcanjo, desenvolveu um trabalho permanente com pessoas em situação de rua e outros grupos socialmente vulnerabilizados.

Sua atuação alcançou crianças, adolescentes, jovens, pessoas em conflito com a lei, imigrantes, refugiados e tantos outros que vivem situações de exclusão.

Ao longo desse percurso, acolhimento e defesa de direitos caminharam juntos.

E talvez seja justamente essa combinação que melhor defina sua trajetória.

Não se trata apenas de assistir aqueles que precisam. Trata-se de reconhecer direitos.

Não se trata apenas de acolher quem chega. Trata-se de reconhecer que quem chega também pertence à humanidade comum que compartilhamos.

Por isso, a escolha do Padre Júlio possui um significado que ultrapassa sua própria trajetória.

Ela reafirma uma compreensão de cultura como construção cotidiana da sociedade.

Aproveito a oportunidade para destacar o excelente trabalho das comissões julgadoras dos Prêmios FCW, de Ciência, de Cultura e de fotografia. 

No Prêmio de Ciência, a comissão foi presidida por Helena Nader e composta por Antonio José Roque da Silva, Antonio José de Almeida Meirelles, Carlos Alberto Aragão, Carlos Graeff, Jerson Lima Silva, José Galizia Tundisi, Marcio de Castro Silva Filho, Manoel Barral Netto e Olival Freire Junior. 

No Prêmio de Cultura, a comissão foi presidida por Alcir Pécora e composta por Ana Carolina Maciel, Carlos Augusto Calil, Eugênio Bucci, Hubert Alquéres, Liniane Haag Brum, Márcio Seligmann-Silva, Mariluce Moura, Sabine Righetti e Suzana Velasco. 

O júri do Prêmio FCW de Fotografia 2026 foi composto por Érico Hiller, Leão Serva, Maíra Gamarra, Sofia Fan e Rubens Fernandes Junior, que é o coordenador do prêmio.

A todos os integrantes dos júris, agradeço em nome da Fundação Conrado Wessel.   

Como todos os anos em nossa já tradicional cerimônia, Ciência e Cultura se encontram novamente, mas sempre trazendo desafios diferentes. 

Esse também é o espírito do Prêmio FCW de Fotografia.

Em sua vigésima edição, o prêmio tem como tema “Veredas do Brasil”, uma escolha particularmente simbólica.

Em 2026, celebramos o bicentenário do advento da fotografia e celebramos os 70 anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

Celebramos também a trajetória de Ubaldo Conrado Wessel, pioneiro da indústria do papel fotográfico no Brasil, que recebeu, há um século, a carta-patente para produzir industrialmente sua criação.

E prestamos homenagem a Maureen Bisilliat, que, em 1969, realizou um dos primeiros grandes encontros entre a literatura brasileira e a fotografia ao transformar em imagens o universo de Grande Sertão: Veredas.

A comunidade de fotógrafos do Brasil respondeu enfaticamente ao tema e à sua importância. 

O resultado foi um sucesso de participação, com 494 ensaios submetidos por fotógrafos de todos os estados do país, o que representou um aumento de 147% em relação ao ano anterior.  

A comissão julgadora do Prêmio FCW de Fotografia selecionou os finalistas, que hoje são premiados. O voto dos presentes na noite de hoje decidiu a classificação dos selecionados pelo júri: Cássio Vasconcellos, em primeiro lugar, Isis Medeiros em segundo e Ana Leal em terceiro.

Literatura e fotografia. 

Duas linguagens que se aproximam e se afastam, que se complementam e também se tensionam.

Duas maneiras de olhar para um país complexo, diverso e muitas vezes contraditório.

E é justamente essa capacidade de olhar que a fotografia nos oferece.

Olhar para o país.

Olhar para as pessoas. 

Olhar para aquilo que está diante de nossos olhos e, muitas vezes, não conseguimos enxergar.

Como escreveu Guimarães Rosa: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. 

Esse é uma boa síntese desta noite. 

Estamos todos no meio da travessia.

Que ela própria atravessará o tempo, o espaço, o espaço-tempo de nosso sempre renovado trajeto em busca do belo, do bem e da verdade.

Viva a democracia! Viva a liberdade!

Muito obrigado.



Fotos da premiação: Davi Martins / Clint Filmes



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