Padre Júlio Lancellotti e Mario Murakami recebem Prêmio FCW 2026
Em cerimônia em São Paulo, Fundação Conrado Wessel reconhece a atuação do sacerdote na defesa dos direitos humanos e a contribuição do cientista para a transição energética. Evento teve exibição de documentário sobre Alberto Dines, dirigido por Ugo Giorgetti, e show de João Cavalcanti

Em cerimônia realizada na noite de quinta-feira (29/10), em São Paulo, a Fundação Conrado Wessel (FCW) entregou o Prêmio FCW de Cultura ao Padre Júlio Lancellotti e o Prêmio FCW de Ciências a Mario Murakami. Os dois vencedores receberam R$ 500 mil cada um, além do troféu do Prêmio FCW, criado pelo artista plástico Nicolas Vlavianos.
Os prêmios de Cultura e de Ciências tiveram como temas, respectivamente, “Migrações – Direitos Humanos” e “Transição Energética”. As escolhas reconhecem trajetórias que, em campos distintos, contribuem para enfrentar desafios sociais, ambientais e científicos do país.
Na abertura da cerimônia, Carlos Vogt, diretor-presidente da Fundação, destacou a convicção de que ciência, cultura e arte são fundamentais para compreender o mundo, ampliar horizontes e construir um futuro melhor. Em seu discurso, ressaltou a conexão entre os temas da edição.
“Um tema remete à ciência, à tecnologia, à energia, à economia e ao futuro ambiental do planeta. O outro nos conduz à mobilidade humana, às fronteiras, ao acolhimento, à exclusão, à dignidade e aos direitos fundamentais. Uma transição energética que não considere as pessoas, os territórios e as desigualdades também corre o risco de produzir novas formas de exclusão”, disse.
A cerimônia contou com a exibição do documentário Alberto Dines – Vínculos de Liberdade, dirigido por Ugo Giorgetti, que resgata a trajetória intelectual, profissional e humana de um dos nomes centrais do jornalismo brasileiro. O evento também teve apresentação musical do cantor João Cavalcanti, conhecido por sua atuação na música popular brasileira e por sua trajetória ligada ao samba.
Prêmio FCW de Cultura
Padre Júlio Lancellotti recebeu o Prêmio FCW de Cultura 2026 pela sua atuação social, marcada pela defesa dos direitos humanos e pelo acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade. Pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, e vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, ele é uma das principais referências brasileiras no trabalho com pessoas em situação de rua.
“Agradeço, com muita emoção, o Prêmio FCW, da Fundação Conrado Wessel, que recebo em nome da população em situação de rua. Agradeço muito essa distinção. Sinto-me muito honrado e incentivado a perseverar na defesa dos direitos humanos. Estamos juntos nessa luta”, disse o sacerdote.
Nascido em São Paulo, em 1948, Lancellotti é pedagogo e sacerdote católico. Sua atuação social começou antes mesmo da ordenação sacerdotal. Formado em Pedagogia e especializado em Orientação Educacional, trabalhou no Serviço Social de Menores e no Centro de Apoio ao Imigrante, no Brás, onde deu aulas para crianças com dificuldades de aprendizagem. Iniciou os estudos de Teologia em 1981 e foi ordenado sacerdote em 1985.
Ao lado de Dom Luciano Mendes de Almeida, participou da estruturação da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, esteve entre os grupos fundadores da Pastoral da Criança e colaborou na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Desde 1986, quando foi designado para a Paróquia de São Miguel Arcanjo, desenvolve trabalho pastoral com pessoas em situação de rua e outros grupos socialmente vulnerabilizados.
Sua atuação abrange crianças, adolescentes, jovens em conflito com a lei, pessoas em liberdade assistida, imigrantes, refugiados e outros grupos submetidos à exclusão social. O trabalho combina acolhimento direto, assistência e defesa de políticas públicas voltadas à garantia de direitos e à inclusão.
“Receber este prêmio é um ato de resistência, de rebeldia e de inteligência diante do retrocesso, da maldade e do neofascismo que querem se impor”, disse o Padre Júlio no discurso de agradecimento.
Carlos Vogt destacou que a trajetória de Padre Júlio representa uma concepção de cultura vinculada à construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. “Não se trata apenas de assistir aqueles que precisam. Trata-se de reconhecer direitos. Não se trata apenas de acolher quem chega. Trata-se de reconhecer que quem chega também pertence à humanidade comum que compartilhamos. O reconhecimento de Padre Júlio ultrapassa sua trajetória individual e reafirma uma compreensão de cultura como construção cotidiana da sociedade”, disse.
Prêmio FCW de Ciências
Mario Tyago Murakami, vencedor do Prêmio FCW de Ciências 2026, é diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais e presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança. Sua atuação científica concentra-se no desenvolvimento de soluções biotecnológicas sustentáveis, com foco nos mecanismos moleculares e nos sistemas microbianos da biodiversidade brasileira.
Coordenador do Programa Fapesp de Pesquisa em Transição Energética, Murakami lidera pesquisas em bioenergia, bioeconomia e biorrenováveis. Entre as linhas de investigação estão o aproveitamento de resíduos agroindustriais e a bioconversão microbiana, processos que podem contribuir para o desenvolvimento de novas tecnologias de base biológica.
Seus trabalhos resultaram em descobertas de mecanismos inéditos de biocatálise e avanços no estudo do metabolismo de carboidratos, com resultados publicados em periódicos internacionais como Nature, Science, Nature Chemical Biology, PNAS e Nature Communications.
Sob sua liderança, plataformas biotecnológicas vêm sendo validadas em escala piloto e em condições operacionais relevantes, além de desenvolvidas em parceria com o setor produtivo. Entre elas está a plataforma OpEn, tecnologia nacional para a produção de enzimas destinadas à bioindústria, utilizada por universidades e institutos de pesquisa no Brasil e em outros países.
“Receber esse prêmio é uma enorme honra, mas é também uma daqueles momentos que nos convidam a olhar para trás e perguntar o que de fato constrói uma trajetória científica. Para mim nunca foi um único trabalho, uma descoberta isolada um momento particular. Ciência é uma construção feita de curiosidade, persistência, pessoas, erros, reconhecimentos e sobretudo com a disposição de continuar fazendo perguntas difíceis. Ao longo da minha trajetória, sempre procurei evitar uma fronteira rígida entre ciência fundamental e ciência aplicada", disse Murakami.
O pesquisador ressaltou as condições brasileiras para contribuir com essa transformação, entre elas a capacidade de produção de biomassa associada à agricultura, a biodiversidade e a competência científica do país. Também destacou a importância de investir em ciência de longo prazo como política de Estado e em pesquisas capazes de gerar impacto econômico, ambiental e social.
“A trajetória de Mario Murakami expressa uma característica que a Fundação Conrado Wessel considera fundamental: a capacidade de estabelecer pontes. Pontes entre ciência básica e inovação. Entre universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo. Entre conhecimento científico e desenvolvimento sustentável. E, sobretudo, entre aquilo que sabemos hoje e aquilo que precisamos ser capazes de fazer amanhã", disse.
O reconhecimento também destaca o potencial brasileiro na transição energética. “Reconhecer essa potencialidade não significa ignorar os desafios. Significa reconhecer que ciência, pesquisa de longo prazo e inovação são instrumentos indispensáveis para enfrentá-los”, disse Vogt.
Vínculos da Liberdade
Dirigido por Ugo Giorgetti e produzido pela SP Filmes de São Paulo, com apoio da Fundação Conrado Wessel, o documentário Vínculos da Liberdade reúne imagens de arquivo e depoimentos de colegas, amigos e contemporâneos de Alberto Dines, que morreu em 2018.
O filme percorre mais de seis décadas de atuação do jornalista em veículos como Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Visão e Diário da Noite, além de abordar a criação da coluna Jornal dos Jornais, pioneira na crítica de mídia brasileira e embrião do Observatório da Imprensa.
Entre os entrevistados estão Fernando Gabeira, Juca Kfouri, Eugênio Bucci, Paulo Markun, José Trajano e Norma Couri, viúva de Dines. Carlos Vogt, diretor-presidente da Fundação Conrado Wessel, também participa do documentário, relatando a parceria com Dines na criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp (Labjor).
Assista o documentário em: https://www.youtube.com/watch?v=XFYYezPbY3E
Sobre o Prêmio FCW
Criado pela Fundação Conrado Wessel, o Prêmio FCW reconhece anualmente personalidades ou instituições que se destacam pelo talento inovador, liderança, abrangência social, trabalho, integridade e ética. A iniciativa contempla diferentes áreas do conhecimento e busca valorizar trajetórias que contribuam de maneira relevante para a sociedade brasileira.
Fotos da premiação: Davi Martins / Clint Filmes
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