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Mario Murakami recebe Prêmio FCW de Ciências 2026 e defende uma ciência sem medo

há 9 minutos
4 min de leitura

Em cerimônia em São Paulo, cientista foi reconhecido por suas contribuições à biotecnologia e à transição energética. Em discurso, falou sobre a importância de uma ciência com coragem de fazer grandes perguntas e de enfrentar os grandes desafios da sociedade



O cientista Mario Tyago Murakami, diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), recebeu na quinta-feira (29/10), em São Paulo, o Prêmio FCW de Ciências 2026, concedido pela Fundação Conrado Wessel (FCW). 


A premiação, que teve como tema “Transição Energética”, reconheceu a contribuição de Murakami ao desenvolvimento de soluções biotecnológicas sustentáveis e à aproximação entre pesquisa fundamental e inovação.


Murakami recebeu R$ 500 mil e o troféu do Prêmio FCW, criado pelo artista plástico Nicolas Vlavianos. Na cerimônia, que também homenageou o Padre Júlio Lancellotti com o Prêmio FCW de Cultura, o pesquisador defendeu uma concepção de ciência em que a busca pelo conhecimento e sua aplicação na sociedade são dimensões inseparáveis.


“Receber esse prêmio é uma enorme honra, mas é também um daqueles momentos que convidam a olhar para trás e perguntar o que de fato constrói uma trajetória científica. Para mim, nunca foi um único trabalho, uma descoberta isolada ou um momento particular. Ciência é uma construção feita de curiosidade, persistência, pessoas, erros, reconhecimentos e sobretudo com a disposição de continuar fazendo perguntas difíceis. Ao longo da minha trajetória, sempre procurei evitar uma fronteira rígida entre ciência fundamental e ciência aplicada", disse Murakami. 


“Sempre me pareceu artificial escolher entre compreender profundamente a natureza e transformar esse conhecimento em algo relevante para a sociedade. Na ciência em que acredito, essas duas dimensões se alimentam”, disse. 


Para ilustrar essa relação, Murakami lembrou descobertas científicas que, inicialmente motivadas pela curiosidade, acabaram dando origem a tecnologias transformadoras, como os avanços da física quântica e o desenvolvimento de ferramentas de edição genética.


“Não vejo ciência fundamental e inovação como caminhos concorrentes. Vejo um ciclo virtuoso. Compreender permite transformar e a necessidade de transformar nos leva a fazer novas perguntas fundamentais”, disse.


O pesquisador também ressaltou que a excelência científica não resulta de descobertas isoladas, mas de um processo contínuo, marcado por tentativas, erros, persistência e colaboração.


“A excelência científica não é um pico, é uma construção, um acúmulo de conhecimento e maturidade que raramente segue uma linha reta. A ciência pode até nascer de uma ideia individual, mas a grande ciência é uma construção coletiva”, disse. 


Murakami dedicou parte de seu discurso às equipes de pesquisa, aos mentores e aos jovens cientistas com quem trabalha e trabalhou. Para ele, uma das maiores responsabilidades de quem lidera grupos científicos é criar condições para que novas gerações possam formular perguntas ambiciosas e explorar caminhos ainda desconhecidos.


“Se há uma mensagem que gostaria de deixar nesta noite, é que o Brasil precisa continuar acreditando em uma ciência que não tenha medo nem de grandes perguntas nem dos grandes desafios da sociedade”, disse. 



Pesquisa para a transição energética


Presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa em Transição Energética, Murakami desenvolve pesquisas voltadas ao aproveitamento sustentável da biodiversidade brasileira, com foco nos mecanismos moleculares e nos sistemas microbianos.


Entre suas principais linhas de investigação estão o aproveitamento de resíduos agroindustriais, a bioconversão microbiana e o desenvolvimento de processos biotecnológicos capazes de contribuir para uma economia de baixo carbono.

Seus trabalhos levaram à descoberta de mecanismos inéditos de biocatálise e a avanços no conhecimento do metabolismo de carboidratos, com resultados publicados em periódicos científicos internacionais como Nature, Science, Nature Chemical Biology, PNAS e Nature Communications.


Sob sua liderança, plataformas biotecnológicas vêm sendo desenvolvidas em parceria com o setor produtivo e validadas em escala piloto e em condições operacionais relevantes. Entre elas está a plataforma OpEn, tecnologia nacional voltada à produção de enzimas para a bioindústria, utilizada por universidades e institutos de pesquisa no Brasil e no exterior.



Pontes entre ciência e sociedade


Na abertura da cerimônia, Carlos Vogt, diretor-presidente da Fundação Conrado Wessel, destacou a capacidade de Murakami de integrar diferentes dimensões da atividade científica.


“A trajetória de Mario Murakami expressa uma característica que a Fundação Conrado Wessel considera fundamental: a capacidade de estabelecer pontes. Pontes entre ciência básica e inovação. Entre universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo. Entre conhecimento científico e desenvolvimento sustentável. E, sobretudo, entre aquilo que sabemos hoje e aquilo que precisamos ser capazes de fazer amanhã”, disse. 


Vogt também ressaltou que a transição energética exige não apenas avanços tecnológicos, mas atenção às consequências sociais e ambientais das transformações econômicas. “Uma transição energética que não considere as pessoas, os territórios e as desigualdades também corre o risco de produzir novas formas de exclusão”, disse.


A cerimônia contou com a exibição do documentário Alberto Dines – Vínculos de Liberdade, dirigido por Ugo Giorgetti, sobre a trajetória de um dos nomes centrais do jornalismo brasileiro, e com apresentação musical do cantor e compositor João Cavalcanti.


Sobre o Prêmio FCW


Criado pela Fundação Conrado Wessel, o Prêmio FCW reconhece anualmente personalidades ou instituições que se destacam pelo talento inovador, liderança, abrangência social, trabalho, integridade e ética. A iniciativa contempla diferentes áreas do conhecimento e busca valorizar trajetórias que contribuam de maneira relevante para a sociedade brasileira.




Fotos da premiação: Davi Martins / Clint Filmes



Leia mais sobre a cerimônia de entrega dos Prêmios FCW 2026:




Viva a democracia! Viva a liberdade! - discurso de Carlos Vogt na cerimônia de premiação






 
 
 

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