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Padre Júlio Lancellotti recebe Prêmio FCW de Cultura 2026 e reafirma compromisso com a população em situação de rua

há 10 horas
5 min de leitura

Sacerdote foi homenageado pela Fundação Conrado Wessel por sua atuação na defesa dos direitos humanos. Em discurso emocionado, dedicou o reconhecimento às pessoas socialmente excluídas e defendeu a solidariedade como forma de resistência



“Não luto para vencer. Luto para ser fiel até o fim.” Com essa declaração, o Padre Júlio Lancellotti reafirmou seu compromisso com a defesa dos direitos humanos ao receber, na quinta-feira (29/10), em São Paulo, o Prêmio FCW de Cultura 2026, concedido pela Fundação Conrado Wessel (FCW).


A premiação, que teve como tema “Migrações – Direitos Humanos”, reconheceu a trajetória do sacerdote no acolhimento e na defesa de pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente da população em situação de rua. Lancellotti recebeu R$ 500 mil e o troféu criado pelo artista plástico Nicolas Vlavianos.


Padre Júlio disse ter ficado surpreso com a homenagem e que o prêmio não pertencia apenas a ele, mas às pessoas com quem convive e trabalha diariamente. “Não esperava receber esse prêmio, mas amanhã ele estará nas mãos do povo da rua, na carroça dos cantadores, como reconhecimento à humanidade e à dignidade dessas pessoas”, disse.


Em um discurso marcado por críticas à exclusão social e à intolerância, Lancellotti classificou a homenagem como um gesto de resistência diante do avanço de discursos e práticas que ameaçam os direitos humanos. “Receber este prêmio é um ato de resistência, de rebeldia e de inteligência diante do retrocesso, da maldade e do neofascismo que querem se impor”, disse. 


Para o sacerdote, uma sociedade marcada por profundas desigualdades exige solidariedade e compromisso com os grupos historicamente marginalizados. “É necessário cultivar um olhar que não afaste, mas aproxime; que não fira, mas cure; que não rejeite, mas acolha e integre”, disse.


Um encontro antes da premiação


Um dos momentos mais emocionantes do discurso foi o relato de um encontro ocorrido naquela mesma manhã, antes de sua participação na cerimônia. Ao chegar à Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, para celebrar a missa das sete horas, Lancellotti encontrou um homem em situação de rua deitado na calçada, sem coberta ou qualquer proteção contra o frio.


Embora conviva diariamente com centenas de pessoas nessa situação, não conhecia aquele homem. Aproximou-se e o convidou a entrar na igreja. “Eu disse: ‘Irmão, entre na igreja, venha tomar um chá quente comigo’. Nunca vi os olhos de alguém brilharem tanto”, contou.


O homem aceitou o convite. Tomou chá, comeu pão e recebeu um cobertor. Em seguida, quando o padre retornou para vê-lo novamente, surpreendeu-se ao não encontrá-lo. “Na minha fé, acredito que foi Deus quem me visitou, como um sinal de luz para este momento que estamos vivendo”, afirmou.


O episódio serviu de ponto de partida para uma reflexão sobre a relação entre solidariedade e compromisso social. “Não adianta lutar sem partilhar, nem partilhar sem lutar. É preciso fazer as duas coisas”, disse, retomando uma convicção que, segundo ele, repetiu muitas vezes durante a pandemia.


Lancellotti também defendeu que o conhecimento científico e os serviços públicos estejam ao alcance de toda a população. Contou que havia conversado com o ministro da Saúde para reivindicar a incorporação da vacina contra o herpes-zóster ao Sistema Único de Saúde (SUS), de modo a ampliar o acesso dos idosos à imunização. “É fundamental que a ciência esteja a serviço dos mais pobres, dos fracos e dos pequenos”, afirmou, antes de defender o caráter público e universal do SUS.


Ao encerrar sua fala, reiterou a defesa dos direitos de pessoas em situação de rua, catadores de materiais recicláveis, idosos, encarcerados e outros grupos submetidos à exclusão social.


“Não ao racismo, à misoginia, ao feminicídio, à LGBTfobia e a todas as formas de discriminação e violência. Sim à defesa da vida, sempre. Viva a vida!”, disse. 



Uma trajetória dedicada aos direitos humanos


Nascido em São Paulo, em 1948, Padre Júlio Lancellotti é pedagogo e sacerdote católico. Pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, e vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, tornou-se uma das principais referências brasileiras no acolhimento de pessoas em situação de rua e na defesa dos direitos humanos.


Sua atuação social começou antes da ordenação sacerdotal, em 1985. Formado em Pedagogia e especializado em Orientação Educacional, trabalhou no Serviço Social de Menores e no Centro de Apoio ao Imigrante, no Brás, onde também deu aulas para crianças com dificuldades de aprendizagem.


Ao lado de Dom Luciano Mendes de Almeida, participou da estruturação da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, esteve entre os grupos fundadores da Pastoral da Criança e colaborou na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).


Desde 1986, quando foi designado para a Paróquia de São Miguel Arcanjo, desenvolve trabalho pastoral com pessoas em situação de rua, crianças, adolescentes, jovens em conflito com a lei, imigrantes, refugiados e outros grupos socialmente vulnerabilizados.

Seu trabalho combina acolhimento direto, distribuição de alimentos, assistência e defesa de políticas públicas voltadas à garantia de direitos e à inclusão social.


Cultura como construção da sociedade


Na abertura da cerimônia, Carlos Vogt, diretor-presidente da Fundação Conrado Wessel, destacou que a trajetória de Lancellotti representa uma concepção de cultura que ultrapassa a produção artística e intelectual e se manifesta também na construção cotidiana de uma sociedade mais justa.


“Não se trata apenas de assistir aqueles que precisam. Trata-se de reconhecer direitos. Não se trata apenas de acolher quem chega. Trata-se de reconhecer que quem chega também pertence à humanidade comum que compartilhamos”, afirmou.


Para Vogt, a homenagem reafirma o compromisso da Fundação com valores fundamentais da convivência democrática. “O reconhecimento de Padre Júlio ultrapassa sua trajetória individual e reafirma uma compreensão de cultura como construção cotidiana da sociedade”, disse.


A cerimônia também marcou a entrega do Prêmio FCW de Ciências 2026 ao pesquisador Mario Murakami, diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis do CNPEM, por suas contribuições à biotecnologia e à transição energética.


O evento contou ainda com a exibição do documentário Alberto Dines – Vínculos de Liberdade, dirigido por Ugo Giorgetti, e apresentação musical do cantor e compositor João Cavalcanti.



Sobre o Prêmio FCW


Criado pela Fundação Conrado Wessel, o Prêmio FCW reconhece anualmente personalidades ou instituições que se destacam pelo talento inovador, liderança, abrangência social, trabalho, integridade e ética. A iniciativa contempla diferentes áreas do conhecimento e busca valorizar trajetórias que contribuam de maneira relevante para a sociedade brasileira.


Fotos da premiação: Davi Martins / Clint Filmes




Fotos da premiação: Davi Martins / Clint Filmes



Leia mais sobre a cerimônia de entrega dos Prêmios FCW 2026:




Viva a democracia! Viva a liberdade! - discurso de Carlos Vogt na cerimônia de premiação



 
 
 

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