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SBPC entrega 7º Prêmio Carolina Bori a pesquisadoras que transformaram a ciência

  • há 3 dias
  • 7 min de leitura

Da vacina contra o HPV à consolidação da cristalografia e da Arte-Educação como campos de estudo no país, a premiação reconheceu pesquisas que transformaram a saúde pública, estruturaram áreas estratégicas da ciência e ampliaram o pensamento humanístico no Brasil



Rafael Revadam e Daniela Klebis – Jornal da Ciência



Pesquisas que salvaram vidas, estruturaram áreas estratégicas da ciência brasileira e redefiniram o ensino das artes foram prestigiadas na 7ª edição do Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher, promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).


A cerimônia de premiação foi realizada nesta quarta-feira, 11 de fevereiro, em celebração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, e também homenageou três pesquisadoras com menções honrosas, ressaltando a presença das mulheres nas políticas públicas, na formação acadêmica e no pensamento social.


A presidente da SBPC, Francilene Garcia, iniciou as falas da solenidade comemorando a data instituída pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 2015, que, segundo ela, simboliza um movimento pela equidade de gênero no ambiente acadêmico.


Garcia também reconheceu a importância dos parceiros que colaboraram para a realização do Prêmio Carolina Bori. “Gostaria de iniciar agradecendo às nossas Sociedades Científicas Afiliadas, porque são elas que indicam as candidatas à categoria ‘Mulheres Cientistas’ do nosso Prêmio. É por meio da parceria com essas sociedades científicas que nós conseguimos reconhecer e valorizar personalidades que são excelências em suas respectivas áreas de atuação”, disse.


O Prêmio é realizado anualmente, alternando duas categorias – “Mulheres Cientistas” e “Meninas na Ciência”. Esta edição foi dedicada às “Mulheres Cientistas”, que homenageia pesquisadoras com trajetórias de destaque em três grandes áreas do conhecimento: Humanidades; Ciências Biológicas e da Saúde; e Engenharias, Exatas e Ciências da Terra.


Vice-presidente da SBPC e coordenadora desta edição da premiação, Soraya Smaili destacou a dificuldade do júri para selecionar as três vencedoras, tamanha qualidade das indicações.


Smaili, que também é conselheira da Fundação Conrado Wessel, apresentou números das sete edições do prêmio, com destaque ao fato de a premiação já acumular 27 premiadas, sendo 10 mulheres cientistas e 17 jovens pesquisadoras. Do total das vencedoras na categoria “Meninas na Ciência”, que busca reconhecer talentos e incentivar garotas do Ensino Médio e Graduação, 82% seguem na carreira científica. “Com tal histórico, é uma honra coordenar este prêmio”, disse.


Por conta de uma agenda de última hora com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, não pôde estar presente na cerimônia, como foi nos dois anos anteriores, mas participou em vídeo e manifestou seu apoio à premiação e às premiadas.


“O Prêmio Carolina Bori Ciência e Mulher é muito mais do que o reconhecimento de trajetórias individuais, ele é, sobretudo, parte de nossa luta maior pela equidade de gênero na Ciência brasileira. Celebrar esse prêmio no Dia Internacional de Meninas e Mulheres da Ciência, instituído pela Unesco, é reafirmar um compromisso civilizatório, um compromisso com a justiça, com a democracia, a diversidade e o futuro”, disse Santos.


Representando o apoio do Centro MariAntonia, sede da cerimônia, o reitor da Universidade de São Paulo (USP), Aluísio Augusto Cotrim Segurado, disse se sentir honrado em integrar a universidade numa iniciativa tão importante quanto o Prêmio Carolina Bori.


“Em nome da Universidade de São Paulo, queria dar as boas-vindas a todos na nossa universidade, neste espaço que é extremamente importante e simbólico, o Centro Cultural e Universitário MariAntonia, sede original da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, e que representou durante períodos muito difíceis da história brasileira, um espaço de resistência, de defesa da democracia, de promoção à cultura e de defesa da Ciência. Não haveria melhor lugar para esta cerimônia de hoje”, disse Segurado.


Trajetórias de impacto


Vencedora da categoria Ciências Biológicas e da Saúde, Luisa Lina Villa construiu uma trajetória científica profundamente associada ao enfrentamento do HPV, vírus responsável pela quase totalidade dos casos de câncer de colo do útero no mundo.


Referência internacional no tema, teve papel fundamental nas pesquisas que subsidiaram o desenvolvimento da vacina profilática contra o papilomavírus humano, hoje uma das mais importantes estratégias globais de prevenção do câncer. Graduada em Ciências Biológicas pela USP (1972) e doutora em Ciências (Bioquímica) pelo Instituto de Química da mesma universidade (1978), Villa dedicou décadas à investigação da biologia do vírus, da resposta imunológica e das implicações epidemiológicas da infecção.


“O desenvolvimento dessas vacinas permitirá que, em alguns anos, nenhuma mulher morra de câncer provocado pelo HPV”, disse Villa. Em seu discurso, destacou o caráter coletivo da ciência e homenageou as pesquisadoras que seguem transformando conhecimento em políticas de prevenção e impacto social.


“Um prêmio dessa magnitude não se recebe sozinha. Continuarei trabalhando em prol da Ciência, lembrando que precisamos perseguir nossos sonhos com afinco, seriedade, honestidade e responsabilidade. Hoje vocês me fizeram sentir plena e realizada”, destacou.


Na mesma área de Ciências Biológicas e da Saúde, o Prêmio Carolina Bori também concedeu uma menção honrosa a Nísia Verônica Trindade Lima, professora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-ministra da Saúde. “Esse prêmio é pedagógico, porque representa todas as mulheres na ciência e, também, é dedicado às meninas na ciência”, ponderou Trindade.


Sócia da SBPC há mais de 30 anos, a homenageada afirmou que sua trajetória foi feita de muitos cruzamentos felizes. “Me formei em Ciências Sociais e entrei na área da saúde coletiva. Desde que ocupei a presidência na Fiocruz, minha grande escola, estou me dedicando às políticas de saúde. Mas a grande escola mesmo é o Brasil. Seja pela literatura, seja pelos meus interesses de transformação social, eu aprendi que precisamos ter projetos estruturados. Temos uma tarefa coletiva de construção, que depende muito de nossa comunidade científica, de nossas mulheres cientistas. Porque o conhecimento científico, para virar política pública, precisa de ciência, de comunicação com a sociedade e de governos que façam isso acontecer", disse Trindade.


Já a ganhadora da categoria Exatas e Ciências da Terra, Iris Concepcion Linares de Torriani, é física (Universidad de Buenos Aires/Universidad Nacional de La Plata, 1965) e doutora em Física pela Universidad Nacional de La Plata (1975), com estágio doutoral na University of Pennsylvania (Johnson Foundation, Dept. of Biophysics). Em 1976 chegou ao Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp, onde consolidou uma trajetória acadêmica marcada pela liderança científica, formação de pessoas e pela implantação de uma infraestrutura estratégica para a comunidade de cristalografia e de materiais no Brasil.


“Minha paixão sempre foi a ciência. A minha trajetória de cientista sempre foi marcada por uma interação muito positiva com colegas e professores. De forma divertida e produtiva, fizemos tudo o que podíamos fazer e o resultado foi excelente. Por isso acho que eu não mereço este reconhecimento sozinha, todos merecem ganhar comigo”, disse.


Torriani ressaltou que sua maior conquista é como educadora, e ter conseguido impactar muitas vidas. “Isso é motivo de orgulho e satisfação. Há um ponto na vida em que o mais relevante não é o nosso próprio sucesso, mas sim o sucesso de todos que participaram do processo de educação, o quanto contribuímos para o sucesso deles. Hoje, meus alunos têm muito o que contar, e isso é a realização de um conceito que aprendi com o escritor Michael Josephson, que disse: ‘Viva uma vida que faz diferença’ (“Live a life that matters”)”, disse.


Na área de Exatas e Ciências da Terra, a menção honrosa foi concedida a Marilia Oliveira Fonseca Goulart, docente da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). “A SBPC me acompanha desde que entrei na graduação. Foi numa Reunião Anual da entidade que assisti à palestra mais inspiradora para a minha carreira, sobre pontes entre Ciência e Artes. Depois, em 1977 e nas reuniões seguintes, me lembro como a SBPC lutou naqueles anos duros, e como isso nos moldou", disse.


Goulart também ressaltou que a história de uma cientista é feita de muita gente e de reciprocidade. “Me toca o quanto se aprende nessa trajetória. Dedico esse prêmio a todos que me ajudaram nesse caminho de aprendizado. Porque, no final, o que deixamos de herança é algo humano: os nossos alunos”, disse.


Aluna, amiga e discípula de Paulo Freire, a vencedora da categoria Humanidades, Anna Mae Tavares Bastos Barbosa, foi responsável por consolidar a Arte-Educação como campo de pesquisa e formação acadêmica no Brasil. Com graduação em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (1960), mestrado em Art Education pelo Southern Connecticut State College (1974) e doutorado em Humanistic Education pela Boston University (1978), construiu uma trajetória que articula pensamento pedagógico, produção cultural e compromisso democrático. Professora emérita da USP, também integra o corpo docente da Universidade Anhembi Morumbi.


“Esse prêmio para mim significa duas coisas: emoção e alegria. A emoção é por ele ser entregue aqui no Centro MariAntonia, um símbolo da vitória da democracia. Já a minha alegria vem de várias razões, mas uma das principais é que conheci Carolina Bori. Ela era uma mulher fantástica, com uma linguagem dialogal: sabia ouvir e tomar decisões rápidas e eficientes”, disse.


Barbosa destacou que sua trajetória dialoga com a de Carolina Bori. Assim como Bori estruturou a Psicologia como área de estudo no País, Anna Mae enfrentou resistências para afirmar a Arte-Educação como campo acadêmico legítimo. “A primeira vez que propus a criação desse campo, recebi muitos não. Hoje, 50 anos depois, receber o prêmio da SBPC, que leva o nome da pioneira Carolina Bori, é particularmente simbólico para mim. É uma alegria ver que a entidade me escolheu”, disse.


A menção honrosa da área de Humanidades foi concedida a Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora e ex-vice-reitora (2022–2026) da Universidade de São Paulo. A distinção reconhece sua trajetória na sociologia da cultura, com ênfase no estudo da produção intelectual, artística e literária no Brasil, bem como nas transformações promovidas pela comunicação de massa na vida social.


“É uma honra e uma alegria receber esta indicação. Honra por se tratar de uma homenagem desta importantíssima instituição que é a SBPC, em um prêmio voltado às mulheres. O Prêmio é também uma homenagem a Carolina Bori, grande e pioneira cientista da Universidade de São Paulo, que engrandeceu o lugar das acadêmicas nas universidades", disse Arruda.


Homenagens aos apoiadores


A cerimônia reuniu ainda autoridades e parceiros institucionais, entre eles o presidente da Fundação Conrado Wessel, Carlos Vogt, e o presidente da Fapema (Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão), Nordman Wall, que receberam placas em reconhecimento ao patrocínio a esta edição do Prêmio e incentivo às mulheres cientistas no País.


Também foi ressaltada a presença da primeira vencedora do Prêmio Carolina Bori, Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e presidente de honra da SBPC. A patrona e idealizadora da premiação, Vanderlan Bolzani, foi homenageada por sua contribuição à criação e consolidação do prêmio.

A 7ª edição do Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher contou ainda com o apoio da Fundação Péter Murányi, do CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) e do Centro MariAntonia.




(Fotos: Jardel Rodrigues/SBPC)


 
 
 

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