Morre Elza Berquó, pioneira da demografia brasileira
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Precursora dos estudos de fecundidade e transição demográfica no Brasil, pesquisadora morreu nesta quinta-feira (16), aos 100 anos, deixando um legado que transformou a demografia e influenciou políticas públicas no país.

A ciência brasileira perdeu nesta quinta-feira (16/07) uma de suas maiores intelectuais. Morreu, aos 100 anos, em São Paulo, a matemática, estatística e demógrafa Elza Salvatori Berquó, pesquisadora que revolucionou os estudos populacionais no Brasil e ajudou a construir um novo olhar sobre as mudanças demográficas, sociais e econômicas do país.
Ao longo de mais de sete décadas dedicadas à pesquisa, Elza Berquó esteve na origem de um campo científico que hoje orienta políticas públicas, subsidia decisões governamentais e contribui para compreender fenômenos como a queda da fecundidade, o envelhecimento da população, as desigualdades raciais e de gênero e a saúde reprodutiva. Foi uma das primeiras pesquisadoras brasileiras a demonstrar que as profundas transformações demográficas observadas no país estavam diretamente relacionadas às mudanças sociais, econômicas e culturais da sociedade.
Seu legado ultrapassa a produção acadêmica. Berquó foi protagonista da criação de instituições que moldaram as ciências sociais brasileiras. Participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em 1969, e, anos depois, criou o Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1982. Sob sua liderança, o Nepo tornou-se uma referência nacional e internacional em pesquisa demográfica.
Nascida em Guaxupé (MG), em 17 de outubro de 1925, formou-se em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 1947. Iniciou a carreira na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), onde se aproximou da estatística aplicada à saúde. Em 1958, concluiu o doutorado em Bioestatística pela Universidade Columbia, nos Estados Unidos, formação que ampliou sua visão sobre a utilização dos métodos quantitativos na pesquisa científica.
Embora tenha construído uma sólida trajetória como estatística, foi na demografia que encontrou o campo em que poderia responder às perguntas que mais a interessavam. Em entrevista concedida à Revista Pesquisa FAPESP, em 2017, explicou que os modelos estatísticos descreviam os fenômenos, mas que desejava compreender os fatores sociais, econômicos, culturais e políticos que os produziam. Essa inquietação intelectual marcou toda a sua carreira.
Como professora titular da USP, pesquisadora do Cebrap e fundadora do Nepo, coordenou pesquisas que se tornaram referência para o conhecimento da população brasileira e formou sucessivas gerações de pesquisadores. Muitos de seus alunos hoje ocupam posições de liderança em universidades e centros de pesquisa no Brasil e no exterior, ampliando a influência de sua obra muito além de suas próprias publicações.
Sua atuação também foi decisiva na formulação de políticas públicas. Entre 1994 e 2003, presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), vinculada à Presidência da República. Sob sua coordenação, a comissão consolidou-se como um espaço estratégico de articulação entre governo, academia e sociedade civil para a discussão das políticas relacionadas à população e ao desenvolvimento.
Em reconhecimento à dimensão de sua contribuição científica, a Unicamp concedeu-lhe, em 2021, o título de doutora honoris causa, tornando-a a primeira mulher a receber essa distinção na história da universidade. Na cerimônia, aos 95 anos, deixou uma mensagem que resume o compromisso que orientou sua vida acadêmica:
“Meu tempo é curto, mas ele foi longo o suficiente para ver e ouvir vocês com todo esse carinho. Jovens, continuem a estudar e continuem a luta pela democracia.”
A homenagem simbolizou uma trajetória marcada não apenas pela excelência científica, mas também pela defesa permanente da universidade pública, da democracia e da produção de conhecimento comprometida com a transformação social.
Até o final de 2026, a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento deverá lançar o Prêmio Elza, criado para reconhecer iniciativas de impacto na promoção dos direitos sociais. A homenagem reforça o reconhecimento de uma pesquisadora cuja produção continua orientando estudos sobre população e desenvolvimento no Brasil.
Elza Berquó deixa uma obra que transformou a demografia brasileira em referência internacional e demonstrou que compreender a dinâmica da população é essencial para enfrentar desafios como as desigualdades sociais, o envelhecimento populacional, a saúde pública e o planejamento do desenvolvimento. Seu legado permanecerá vivo nas instituições que ajudou a construir, nas políticas públicas que influenciou e nas gerações de pesquisadores que formou.
Com informações da Revista Pesquisa Fapesp e da Secretaria-Geral da Presidência da República. Foto: Leo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP




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