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Morre Angelita Habr-Gama, médica que transformou o tratamento do câncer e marcou a história da cirurgia brasileira

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Pesquisadora e professora da USP dedicou mais de seis décadas à medicina, rompeu barreiras para as mulheres na cirurgia e deixou contribuições que mudaram protocolos de tratamento em todo o mundo. Foi vencedora do Prêmio FCW de Ciência - Medicina em 2010


A ciência e a medicina brasileiras perderam neste sábado (30/05) uma de suas figuras mais extraordinárias. A cirurgiã Angelita Habr-Gama morreu aos 92 anos, em São Paulo, deixando uma trajetória que se confunde com a própria história da coloproctologia moderna e da pesquisa clínica no país.


Internada desde o início de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, instituição da qual fazia parte do corpo clínico desde 1980, Habr-Gama construiu ao longo de mais de seis décadas uma carreira marcada por pioneirismo, excelência científica e dedicação à formação de novas gerações de médicos. Em 2010, venceu o Prêmio FCW de Ciência - Medicina, concedido pela Fundação Conrado Wessel em reconhecimento à relevância de suas contribuições científicas.


Uma das principais especialistas no mundo no tratamento do câncer colorretal, Habr-Gama foi responsável por uma mudança de paradigma que beneficiou milhares de pacientes em todo o mundo. Seus estudos ajudaram a consolidar a estratégia conhecida como “watch and wait” observação cuidadosa de pacientes com resposta completa à quimio e radioterapia permitindo, em casos selecionados, evitar cirurgias altamente invasivas e preservar o reto e suas funções. A proposta alterou protocolos clínicos internacionais e tornou-se uma das contribuições mais relevantes da medicina brasileira à oncologia contemporânea.


Nascida em 1933, na Ilha de Marajó, no Pará, filha de imigrantes libaneses, mudou-se ainda criança para São Paulo. Ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em 1952, em um período em que a presença feminina nos cursos médicos era reduzida e praticamente inexistente nas especialidades cirúrgicas. Formou-se em 1957 e, desde cedo, demonstrou a determinação que marcaria toda a sua trajetória profissional.


Especializou-se em cirurgia geral e cirurgia do aparelho digestivo, aperfeiçoando seus conhecimentos no St. Mark’s Hospital, em Londres, centro de referência mundial em doenças colorretais. Na Faculdade de Medicina da USP construiu uma carreira acadêmica exemplar, tornando-se a primeira mulher a alcançar o cargo de professora titular em uma especialidade cirúrgica da instituição.


Sua atuação ultrapassou os limites da universidade. Fundou e estruturou a disciplina de coloproctologia do Hospital das Clínicas da USP, presidiu entidades médicas nacionais e internacionais e participou ativamente da consolidação da especialidade na América Latina. Ao longo da vida integrou dezenas de associações científicas, ocupando posições de liderança em organizações brasileiras, europeias e norte-americanas.


O reconhecimento internacional acompanhou a dimensão de sua produção científica. Autora de mais de 300 artigos publicados em periódicos especializados, centenas de capítulos de livros e milhares de apresentações em congressos, orientou dezenas de mestres e doutores e participou da formação de sucessivas gerações de cirurgiões. Em 2022, passou a integrar a lista da Universidade Stanford que reúne os pesquisadores mais influentes do mundo em suas áreas de atuação.


Seu nome também se tornou símbolo da presença feminina em espaços tradicionalmente masculinos. Ao longo da carreira enfrentou resistências e preconceitos por escolher a cirurgia como profissão, mas transformou obstáculos em conquistas. Tornou-se a primeira brasileira admitida como membro honorário da American Surgical Association e a primeira mulher distinguida pela Sociedade Europeia de Cirurgia, entre inúmeros outros reconhecimentos.


Mesmo após enfrentar um quadro grave de Covid-19 em 2020, que a manteve internada em terapia intensiva por várias semanas, retomou rapidamente suas atividades profissionais. Continuou atendendo pacientes, participando de pesquisas, orientando alunos e acompanhando a evolução de uma área da medicina que ajudou a transformar.


Além da cientista de prestígio internacional, colegas e alunos recordam a professora exigente, generosa e profundamente comprometida com o conhecimento. Sua carreira foi guiada pela convicção de que a pesquisa científica deveria produzir benefícios concretos para os pacientes e contribuir para o desenvolvimento da medicina.


Em nota, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz lamentou a perda e destacou a dimensão de seu legado humano e científico, classificando sua morte como uma perda irreparável para a medicina brasileira.


Angelita Habr-Gama deixa uma obra que ultrapassa fronteiras e gerações. Seu nome permanecerá associado à inovação científica, à defesa da pesquisa médica e à construção de uma medicina mais eficaz e menos invasiva. Acima de tudo, deixa o exemplo de uma profissional que transformou conhecimento em benefício para milhares de vidas.


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Foto: Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa Fapesp



 
 
 

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